12 - JUCA


 12 - JUCA

Ninguém sabe exatamente de onde ele veio, nem qual o seu nome verdadeiro. Desde o dia em que pôs os pés na Santa Helena, que o "batizaram" de Juca. E até isso não tinha um motivo claro. Simplesmente olharam para o rapaz e o chamaram por este nome. Ele adotou o nome, não porque tivesse gostado, mas mais porque achou mais simples do que dizer seu nome de batismo... ah, é bom esclarecer que ele só se tornou católico apostólico romano algum tempo depois que já morava na fazenda... até então, seu credo era outro dos mistérios que o envolviam...quando chegou, não devia ter mais de uns quinze, dezesseis anos. Rapazola forte, compleição atlética, logo caiu nas graças de Zacarias, que praticamente adotou o rapaz por algum tempo. Sim, dividiram seu pão com Juca, até que ele conseguiu se aprumar na vida, como se costuma dizer. E ele sempre foi agradecido ao amigo e sua família, que o tratava como um igual. O espírito de camaradagem que existia ali era uma coisa assim tão especial que parecia que sempre havia morado no seio daquela família. Tanto que, no dia em que se mudou para seu ranchinho, conseguido a duras penas, depois de horas de trabalho após a lida diária, sentiu como se estivesse deixando sua família por uma segunda vez... sim, dona Rosário era uma mãezona muito afetuosa, sempre cuidou do rapaz com os mesmos cuidados que dispensava aos seus filhos...

Nos primeiros dias morando sozinho Juca sentia-se oprimido... saudades tanto da sua casa lá nas terras distantes de onde viera quanto da família adotiva que por ele tanto fizera. Muitas vezes sentia o ímpeto de sair por aquela porta e bater na casa de seu amigo, para participar da conversa de família, conhecer as fofocas mais recentes (ultimamente estava muito fofoqueiro... e isso não era muito bom), partilhar da conversa com os membros da família... mas conseguia se controlar. Quando a saudade apertava por demais o seu peito, pegava a violinha que havia comprado na feira mensal do arraial e arrancava do instrumento lindas canções, algumas de seu rincão natal, outras que havia aprendido na labuta do dia a dia ... e assim ia tocando a vida.

Por ser um excelente cavaleiro e por gostar do trato com os animais, Juca acabou sendo escalado para trabalhar com o gado no campo. Bom na corrida e no laço, era um dos melhores vaqueiros da fazenda. Necessário dizer que a fazenda tinha tanto uma parte de lavoura quanto outra de criação de gado. E mesmo a criação de gado também era dividida em gado leiteiro e gado de corte. Juca trabalhava nos dois segmentos, afinal, gado era somente gado... quando era dia de rodeio, ninguém conseguia superá-lo nas provas. E quando puxava de sua viola, não tinha quem não ficasse maravilhado com sua voz e com sua destreza para tirar as notas de seu instrumento. Sim, Juca era o melhor violeiro da região. Sua fama foi crescendo com o tempo, e chegou uma hora em que era convidado para tocar em todos os fandangos da região. As moças suspiravam pelo rapaz. Afinal, não tinha como não se destacar da multidão... em um local onde a maioria das pessoas era morena, com os cabelo negros, sua pele alva, cheia de sardas e seu cabelo vermelho não tinham como não ser notados. E seu rosto tinha uma conformação bonita... sim, as moças suspiravam por ele, desejando serem escolhidas para namorá-lo. Mas seu coração já tinha uma dona. O diabo é que a morena não lhe dava a menor pelota... à vezes parecia mesmo que ele era invisível, pois a moça simplesmente não o notava. E olha que, quando a via por perto, costumava cantar as canções mais melosas, abrindo seu coração e declarando seu amor pela pequena... todo mundo já havia percebido, menos ela...

Devagar foi ajeitando seu rancho. Como seu Nardi deixou-o escolher onde queria levantar sua tapera, resolveu morar debaixo de um lindo pé de ipê. Os galhos da árvore deixavam as flores cair por sobre o telhado da casinha. E o perfume destas invadia toda a morada. A tarde, quando não estava no campo cuidando das reses, pegava sua vara de pescar e ia buscar a mistura para a janta e o almoço do dia seguinte... se considerava um bom pescador, mas não tinha como não pegar os peixes que viviam nos diques da plantação de arroz. Foi em um desses dias em que pescava que viu pela primeira vez sua amada. Aquela menina brejeira conquistou seu coração à primeira vista. Logo tentou descobrir seu nome, o que não foi difícil, pois esta era amiga de Maria, filha de Zacarias. Ficou sabendo que a moça não tinha namorado e que morava sozinha com sua mãe... e seu nome... combinava perfeitamente com ela... afinal, ela era uma graça de menina...

Começou a cortejá-la, mas o diabo é que a menina era mais escorregadia que um bagre. Dava até a impressão de que ela antipatizava com ele, afinal toda vez que tentava conversar com a moça essa o cortava e simplesmente lhe dava o fora... mas devagar, persistindo,  finalmente conseguiu se aproximar da garota e tornar-se seu amigo... bem, talvez "amigo" fosse um termo um tanto exagerado, mas pelo menos conseguia travar com ela diálogos um pouco mais extensos do que "oi" ou "como vai"...  e quando sentiu-se um pouco mais seguro de suas ações, pediu a moça em namoro... a surpresa no rosto dela era genuína, não esperava realmente o pedido do rapaz... isso denotava que ela não se interessava por ele... mas tinha que tentar a sorte, não é mesmo? E foi o que ele fez... até que não se saiu tão mal... afinal, a resposta de Graça é que pensaria sobre o pedido e depois lhe responderia...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MÚSICA É A LINGUAGEM DOS ANJOS

IDENTIDADE

THE CRYSTAL CUP - Chapter Six