10 - A MULHER DE BRANCO


 10 - A MULHER DE BRANCO


Corria um boato por todo o arraial de que um fantasma estava atacando os incautos que andavam pelas ruas depois da meia noite. E que essas pessoas, invariavelmente, morriam por falta de sangue... sim, o fantasma sugava todo o sangue das pessoas e depois desaparecia pelas brumas da noite, deixando o corpo inerte na estrada... poucos conseguiam sobreviver ao ataque, e estes diziam que haviam sido atacados por uma mulher muito bonita. Alta, esbelta, cabelos amarelos, com a cor do sol resplandecente e olhos azuis, tão azuis quanto a água do rio cristalino, lábios vermelhos como a rosa mais bela da roseira... ela não parecia perigosa a primeira vista. Não despertava nenhum tipo de medo em quem a encontrava à noite... mas quando chegava perto da vítima, se transformava, tornando-se a mais horrível besta-fera que poderia cruzar seu caminho...

Maria ouvia essas histórias e ficava simplesmente apavorada. O medo era tanto que nos últimos tempos, ao deixar o trabalho na roça, ia direto para casa, antes que a noite caísse. E já não saía tão cedo de casa para pegar o trabalho, esperava que os primeiros raios de sol surgissem no horizonte, para só então se dirigir para a roça. E não era a única a proceder assim. É claro que o patrão não estava gostando muito dessa história, afinal entrar mais tarde no trabalho e sair mais cedo fazia com que a produção diminuisse... mas o que ele podia fazer? Enquanto esse boato continuasse a percorrer as redondezas, não havia outro remédio senão deixar os peões se cuidarem da maneira que achassem mais seguro... de qualquer forma, como o pessoal ganhava pelo que produzia, para ele o prejuízo não era tão grande, assim...

Graça era mais desprendida, não acreditava muito... acreditava um pouco, é claro... nas histórias que ouvia da boca do povo. E como estavam na Quaresma, época em que todos os espíritos ruins estavam soltos pelo mundo, ela se precavia como sabia ter que se cuidar. Seu crucifixo de prata, benzido pelo Bispo de Aparecida, presente de seu padrinho, não saia de seu pescoço, assim como uma garrafinha de água benta, seu terço e o missário, onde as orações fortes para sua proteção estavam gravados. Sim, ela tomava cuidado para não ser pega pelas forças do além. E aos poucos foi convencendo sua amiga Maria de que se tivessem fé no poder de Deus, podiam caminhar tranquilamente pelas estradas fosse a hora que fosse, pois os anjos estariam sempre ao seu lado, protegendo-as de todo o mal que viesse dessa terra ou do outro lado. E então as duas começaram a sair bem cedo novamente, não que Maria estivesse plenamente convencida da segurança que sua amiga apregoava, mas depois de duas semanas em que seu pagamento foi reduzido substancialmente, resolveu encarar os perigos das madrugadas do sertão... mas só saia de casa quando sua amiga a chamava no terreiro, afinal de contas, precaução e caldo de galinha...

Nunca viu nada de anormal em todas as andanças pela madrugada e de noite, junto com Graça. Depois de uns dias até voltou a se arriscar a buscar lenha com a amiga depois do trabalho. As duas se embrenhavam pela mata e só retornavam para suas casas com um feixe substancial de lenha, afinal esse era o combustível para cozinharem sua comida... Graça morava próxima de Maria. Ela vivia com sua mãe, viúva já a alguns anos. O pai da moça era vaqueiro, e um dia, quando estava separando algumas reses para seguir em campanha, a chuva começou, os relâmpagos começaram a ecoar pelos céus, o gado estourou... e o rapaz caiu de seu cavalo, sendo pisoteado pelos animais que corriam de um lado para o outro, apavorados com os estrondos. Quando finalmente seus companheiros conseguiram acudi-lo, já não podiam fazer mais nada por ele....já estava morto. E desde então o único porto de mãe de Graça era ela, que sempre estava ao lado da mãe, para o que precisasse, não importava o que fosse.... é, a vida era dura...

Era domingo, Maria foi até o centro do arraial, acompanhada pela família. Iam assistir a missa, que era rezada uma vez por mês pelo padre Mauro, que vinha de Cruzeiro especialmente para isso.  Não havia  missa nos outros domingos. A localidade era pequena, a população não era assim tão grande, por isso a capela só era usada uma vez por mês, como já disse. Nos outros domingos, geralmente os próprios fiéis organizavam o culto em suas casas. Afinal, não era porque não tinha padre que iam deixar de expressar sua fé. Então organizavam terços e novenas, que tinham seu término coincidindo com a visita do pároco à capela.

Depois de terminada a função, cada um foi para um canto, olhar as novidades que chegaram da cidade grande. Maria perambulava por entre as barracas, apreciando as mercadorias que eram ofertadas. Não ia comprar nada, pois o dinheiro contado já estava comprometido com as compras da semana. Talvez no final do ano pudesse gastar um pouco e comprar aquele vestido de chita tão lindo que havia visto em uma das bancas... mas não hoje, com toda certeza. 

Maria de repente notou que estava em uma rua que não conhecia. As bancas haviam acabado, e ela havia continuado a caminhar.  A rua era bonita, toda enfeitada de flores, mas as casinhas já estavam um tanto longe do local em que ela se encontrava. Foi então que ela viu... não muito longe, uma mulher se aproximava.... alta, magra, cabelos amarelos, vestido branco.... Maria gelou no ato... era a fantasma sanguessuga... estava perdida... porque teve que se afastar tanto do vilarejo? E a mulher se aproximava... as pernas de Maria começaram a tremer, ela ficou paralisada de medo, sua voz não saia, ela queria gritar por socorro, mas não conseguia... finalmente a mulher chegou ao lado da moça. Olhou-a, viu o pavor em seu rosto, deu de ombros e seguiu em frente... só depois de alguns minutos que a mulher desapareceu pela estrada, Maria voltou ao normal... e então se deu conta de que nenhum fantasma cruzara seu caminho, mas simplesmente uma pessoa que estava aproveitando a manhã do domingo para passear, como ela mesmo o fazia...

 

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