9 - A PLANÍCIE




9 - A PLANÍCIE 

A tarde estava caindo, quando Maria finalmente viu seu pai, depois de quatro dias... a viagem havia sido um pouco mais demorada que o esperado. Quando ela finalmente viu Zacarias, respirou aliviada. Afinal, tudo correra bem... seu pai ali estava, são e salvo. Zacarias notou que sua filha estava um pouco abatida, mas preferiu não fazer nenhum tipo de comentário, até que conversasse com sua esposa, para se inteirar do que ocorrera durante sua ausência... afinal, ficara fora de casa por quase uma semana.

Rosário chegou um pouco depois de Maria. Abraçou seu esposo e depois foi cuidar da janta, pois "ela não ia se preparar sozinha", como disse ao marido. Zacarias riu, pois conhecia o gênio de sua amada. Rosario não gostava de expressar seus sentimentos na frente de ninguém, principalmente na frente dos filhos. Dizia sempre que o que os dois dividiam era apenas dos dois e que ninguém precisava ver "suas intimidades"... para ela, um abraço um pouco mais forte já era "intimidade". Beijos na frente dos filhos?  Mas nem em sonhos... era falta de respeito... foi a maneira que foi educada, onde tudo era pecaminoso. Ela até tentava ser um pouco mais liberal, mas a sua formação de infância falava mais alto, e não conseguia agir de maneira diferente... era contra seus princípios.
Quando já se haviam recolhido, depois das orações da noite, o casal começou a conversar sobre o que ocorrera durante a ausência de Zacarias. Seus filhos já estavam ressonando, então os dois começaram a conversar em voz baixa, colocando os acontecimentos de suas vidas em dia. Zacarias comentou sobre a chuva, o estouro da boiada, e ela falou do dia a dia na roça. Nenhum dos dois mencionou qualquer coisa que fugisse da rotina diária. Nem Zacarias nem Rosario falaram de suas experiências paranormais... finalmente o cansaço venceu os dois e começaram a dormir...
Zacarias se viu de repente de volta à planície. Aquela relva verde a se perder de vista. Lá ao longe, paineiras e ipês... todos floridos. E ao fundo quase na linha do horizonte, a serra... sua querida serra, lugar onde passou toda a sua infância. Estava montado no Ventania, seu baio de estimação. Se sentia jovem, tão jovem como quando começara na lida de gado. Guiou sua montaria em direção aos ipês. Mas reparou que quanto mais avançava, mais a distância entre ele e seu objetivo aumentava. Ao seu lado, sassaricando de um lado para outro, ia Pitoco, seu cachorrinho de estimação... engraçado... Pitoco a muito já havia partido para o outro lado.... como é que ele poderia estar ali ao seu lado? Sim, Zacarias não conseguia entender. Mas resolveu não se preocupar em demasia com isso. Continuou a avançar em direção ao seu objetivo, que parecia inalcançável...
Já devia ter caminhado um par de léguas quando as nuvens começaram a se formar no céu, que até aquele momento estava límpido, com uma luz que clareava todo o mundo. As nuvens começaram a se fechar, anunciando uma chuva pesada que não demoraria a cair... ele olhava para todas as direções, procurando um abrigo para se proteger das intempéries do tempo, mas nada havia em à sua frente, nos lados ou por onde já havia passado. Apenas aquele mar verde, a se perder de vista. Estava sem sua capa boiadeira, o que significava que não teria como se proteger da chuva. E não tinha nenhum lugar para que Ventania pudesse se abrigar....começou a ficar preocupado.
Sem nenhum aviso prévio, a vegetação começou a secar. a relva, que até aquele momento estava tão verdinha, começou a amarelar, depois foi ficando marrom, até que simplesmente feneceu. O mesmo ocorria com as árvores que estavam a sua frente... e, de repente, apenas desolação o cercava. Um sentimento de abandono começou a tomar conta de seu ser. Pitoco , que corria um pouco a frente de Zacarias, voltou ganindo, amedrontado. Zacarias desmontou e pegou o animal no colo. Segurando as rédeas de Ventania com uma mão e com a outra seu cachorro, ele ficou olhando o horizonte que se transformava, sem saber como agir... 
Zacarias quase saltou de sua esteira, ao despertar. Estava empapado de suor. E, não podia negar, estava com medo. Mas, medo de que? Do pesadelo que tivera?  Mas não viu nada demais no sonho...  quer dizer, estava acompanhado de dois animais que a muito já tinham partido... o mundo se transformou diante de seus olhos... mas fora isso, não é assim mesmo que os sonhos são?  Te transportam para um lugar de fantasias, onde tudo aquilo que você sabe ser impossível passa a ser possível, Deus sabe lá como... Zacarias olhou para o lado, observando sua esposa dormir... ela ressonava tranquila, exalando um ar de paz e tranquilidade que acalmou sua alma. Voltou a se deitar, abraçando a companheira e pouco a pouco o cansaço venceu e ele voltou a dormir, desta vez sem sonhos ou pesadelos...

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