11 - GRAÇA
11 - GRAÇA
Graça caminhava pelas margens do rio que cortava o
vilarejo ao meio. Era um rio cristalino, e o marulhar das águas correndo
por seu leito dava uma paz de espírito que tal não havia além dele. Ela gostava
de passear por aquele caminho... mesmo sua mãe lhe recomendando não andar
sozinha por aquele lugar... afinal, quem poderia dizer que perigos poderiam
estar escondidos por aquele caminho? Para ela, não parecia haver perigo algum,
mas já havia ouvido de casos de pessoas que simplesmente sumiram naquela
localidade. Assim, do nada. Mas isso eram histórias que ela ouvia contar. Nunca
conheceu ninguém que de fato tivesse sumido. Era sempre a história de alguém
que era conhecido de alguém que saíra para passear com alguém por aquelas
bandas e de repente não mais retornou. Ela até acreditava que alguma das
histórias tivesse um fundinho de verdade... mas não da maneira que contavam.
Segundo a história corrente, naquele rio, em algum
trecho que ninguém sabia ao certo qual era, morava a mãe d'água. Metade mulher,
metade peixe, tinha sua metade humana o aspecto de uma mulher muito bonita. Tez
morena, olhos oblíquos, negros como a noite sem luar, cabelos
longos e negros, boca vermelha como se tivesse passado carmim... e uma
voz maviosa, que a todos que ouvissem, enfeitiçava, deixando as pessoas à sua
mercê. Diziam que, embora fosse meio gente meio peixe, quando saía da água,
tomava o aspecto de uma pessoa normal, e dificilmente alguém perceberia não
estar na presença de um ser humano. A única maneira de identificar uma Iara
fora de seu habitat natural era uma pequena marca atrás de sua orelha
direita... um pequeno furo que servia para aquele ser respirar fora d'água...
Mas porque um ser das profundezas do rio iria querer
se misturar com as pessoas comuns? Dizem que de tempos em tempos ela vinha à
superfície para procurar alguma alma que merecesse suas benesses. Ela testava
as almas que escolhia e, se essas não passassem no teste por ela aplicado, como
castigo as levava até o fundo do rio e as aprisionava, esperando o dia em que
alguém passasse por seus questionamentos e fosse digno de libertar não só as
almas cativas, mas também de herdar um tesouro que a muito se encontrava
perdido para o mundo, pois fora entregue aos seus cuidados e somente quando ela
encontrasse a alma merecedora, essa fortuna voltaria a ver a luz do dia...
Bem, não é que Graça fosse uma pessoa crédula em
exagero, mas até que não seria ruim encontrar a mãe d'água e ser testada por
ela, conseguir ser aprovada e ganhar o tal tesouro. Afinal, tanto ela quanto
sua mãe viviam contando as moedas para poder fechar as contas da semana... e
algumas vezes acabam sem conseguir honrar algumas dívidas e tinham que contar
com a ajuda dos amigos mais próximos. Todos estavam na mesma pindaíba,
mas quem conseguia respirar um pouco mais tranquilo, ajudava aqueles que
estavam na beira do precipício. Quem costumava dar uma mão para Graça e sua mãe,
Dona Constância, era Zacarias e sua família. Sempre que as duas estavam
sufocadas, por um motivo ou por outro, lá vinha Dona Rosário ou uma de suas
filhas com um embornal com alguns produtos que elas precisariam, de arroz e
feijão até material de limpeza ou outra coisa qualquer que precisassem... se
não fosse essa ajuda, elas não teriam para onde correr...
É claro que não era esse o motivo de seus longos
passeios pelo rio... não, ela caminhava por ali porque realmente era o único
lugar que conseguia lhe dar paz de espírito. Aquele frescor do rio, acompanhado
pela serenata característica da floresta, com seus diferentes sons, onde
misturava o canto dos pássaros com o cricrilar dos grilos, o voo das várias
espécies de borboletas por entre as flores que nasciam próximas da margem...
sim, tudo isso junto fazia com que aquele lugar fosse um pedacinho do paraíso
na terra...
Mas hoje a motivação de seu passeio era outro.
Precisava pensar sobre sua vida, sobre o que iria fazer... recebera um pedido
de namoro, o que quase equivalia a um pedido de casamento. O pretendente era
Juca, um dos ajudantes de "seu" Zacarias. Sim, o rapaz era
trabalhador. Carreiro, boiadeiro, vaqueiro... o que pedissem para ele fazer,
fazia. E ganhava um pouco melhor que aqueles que trabalhavam com a enxada.
Tinha seu ranchinho bem ajeitado, o que era uma coisa de louco, já que a muito
morava sozinho, ao lado de um pé de ipê. Se aceitasse o pedido de namoro do
rapaz e, posteriormente, o pedido de casamento que com certeza viria, sua vida
estaria parcialmente arrumada. Teria alguém em quem confiar e a vida não seria
tão dura, como tinha sido até o momento. Mas... e se não desse certo? E sua
mãezinha, como ficaria?... e se ele não aceitasse sua futura sogra morando no
mesmo teto? Sim, ela tinha que pensar muito bem sobre que decisão tomar...
afinal, não queria se arrepender do passo que resolvesse dar...

Comentários
Postar um comentário