WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS Capítulo Trinta e Oito
WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS
Capítulo Trinta e Oito
Cecília caminhava lenta, cuidadosamente. Um passo por
vez, com cuidado para não fazer barulho. Pois a fera estava próxima. Dava para
sentir sua presença. O que ela estava fazendo naquele lugar? Não tinha a menor
ideia. Sabia que deveria seguir em frente... até o local em que a caverna
estava oculta pelas folhagens...engraçado! Todos procuravam aquele local... mas
poucos sabiam sua localização...
Finalmente ela chegou ao seu destino. O acesso estava
bem escondido, atrás da cachoeira. A garota levou algum tempo até encontra-lo.
E quando finalmente conseguiu acessar o caminho, ficando invisível para quem
quer que passasse ao largo, ela viu o... monstro... se aproximar. Como é que
tinham se referido a ele, mesmo? Ah, sim... "O Jurupari"...
realmente, era uma coisa que ela nunca tinha visto antes. Era um animal, sem
dúvidas. Parecia um lagarto gigante... deveria ter um metro e oitenta, dois de
altura.... andava ereto, como um homem. Cauda comprida, braços curtos... mas as
garras... meu Deus, as garras...
Depois de alguns segundos paralisada, Cecília
tratou de espantar o medo e seguiu em frente, cortando a escuridão com passos
rápidos e firmes. Não demorou muito e avistou suas parceiras....
- Izabel, até que enfim...
- A Graça já estava dizendo que você tinha se
perdido...
Cecilia estranhou... por que aquelas duas estavam
chamando-a de Izabel? E quem eram elas? Mas, apesar do estranhamento, seguiu em
sua direção. Não entendia o porque, mas sabia que deveria acompanhá-las...
- Rosa, nossa amiga está muito quieta, não acha?
- Talvez ela tenha cruzado o caminho do Jurupari....
Rosa voltou seu olhar, um olhar de interrogação para
Cecília. Esta, de pronto, respondeu....
- Sim, ele me perseguiu.... por muito pouco não me
pegou...
- Te viu entrando na caverna?
- Não... levou uns dois minutos entre minha fuga para
o esconderijo e a aparição do monstro...
- Ainda bem...sabia que, se não fosse a água, a gente
não teria como escapar dele?
- Não, eu não sabia. Por quê?
- E quem vai saber? O que sei é que a fera não
atravessa água corrente....
- Estranho, não acham?
- Estranho, com certeza, é... mas porque você pediu
para que nos encontrássemos aqui, Bel?....
- Primeiro, porque... sabe que eu realmente não sei?
- Como assim...?
- Ela está brincando com a gente, Graça...
- A Bel sempre gostou de brincar... mas...
- Gente, porque vocês insistem em me chamar de
"Bel", "Izabel"...? Eu não sou quem vocês estão pensando, e
também não me chamo "Izabel"...
As duas moças caíram na gargalhada... mesmo na
situação crítica em que estavam, sua parceira ainda tinha forças para brincar?
Bom sinal....
- Bel, deixa de firula, menina... a gente te chama do
que você quiser, está bem? Mas agora precisamos saber porque estamos aqui...
Cecilia continuava sem entender nada. Primeiro porque
parecia estar em um cenário de filme de bangue bangue. As duas moças com as
quais se encontrou pareciam aquelas pistoleiras de filme da sessão da tarde...
calça de brim, blusa de algodão, um lenço no pescoço, chapéu... um cinturão
repleto de munição e cada uma portando dois revolveres, bem baixos, à moda dos
atiradores profissionais...
Havia um olho d'água no local em que se encontravam e
Cecília resolveu lavar o rosto, para tirar o suor. Quando fitou seu rosto no
espelho d'água, não conseguiu acreditar no que via... não era seu rosto, com
certeza. O que estava acontecendo? O susto foi tão grande que a moça
sentiu-se desfalecer...
- E essa, agora... que hora essa menina resolve dormir...
- Graça, deixa de graça... não viu que a Bel desmaiou?
- E não é o que estou falando? Com tantos momentos
melhores para isso, ela resolve desmaiar justo agora....
- Vamos tentar despertá-la...
E as duas começaram a passar seus lenços molhados no
rosto e nos pulsos da moça, tentando fazê-la recobrar os sentidos. Finalmente
ela começou a se recuperar...
- Onde... onde estamos?
- Bel, de novo, não!
- Você sabe onde estamos... escondidas em uma caverna,
fugindo de um monstro...
- E tudo porque você resolveu que a gente tinha que
vir para cá...
- Fazer o que, eu não sei...
- Meninas, sério... não faço a menor ideia sobre onde
estamos...
- Onde você queria nos encontrar?
- No recanto da sereia... fui bem clara quanto a
isso...
- É onde estamos... e quase fomos apanhadas por um
monstro... um lagartão gigante...
- O Jurupari... o bicho é rápido como um raio...
- Se ele é tão rápido, como é que escapamos?
- Boa pergunta...
- Que não sabemos responder. Em todo caso, não temos
como sair daqui...
Izabel (sim, agora era a Izabel que estava presente)
ficou alguns instantes pensativa. Durante algum tempo ela permaneceu desligada
de tudo que ocorria ao seu redor, e não sabia porque isso aconteceu. Agora ela
estava de volta, com todas as suas faculdades mentais em ordem... bem, se
estavam na caverna do recanto da sereia, só havia um caminho a seguir. Em
frente, em direção ao centro... ou o que parecia o centro... daquele lugar. Ao
menos era essa a instrução que recebera no bilhete que encontrara no pacote que
seu pai lhe entregou no dia em que partiu.
Depois de tomar fôlego ( ela estava cansada da fuga do
monstro, embora não se lembrasse de ter fugido do mesmo) chamou suas parceiras
e começaram a caminhada em direção ao desconhecido. Não entendia muito
bem o que estava fazendo, mas sabia que tinha que seguir. E assim foi, guiando
suas companheiras pelo labirinto que se abria a sua frente.
Caminharam um bom par de horas, ora no escuro total,
ora em uma claridão que pareciam estar andando pela pradaria em um dia de
verão. Então chegaram em um local que parecia ser o fim da linha para elas...
um pântano, habitado por ferozes jacarés... elas tinham que atravessá-lo
para chegar ao seu destino... mas não tinham a menor ideia de como fazê-lo...
- Meninas, já estou cansada dessas lagartixas
crescidas...
- Eu que o diga...
- Vem cá... a gente tem mesmo que atravessar isso aí?
- Não sei se vocês notaram... mas não temos como
voltar por onde viemos... então, sim... temos que passar para o outro lado...
- Sim, mas... não tenho vontade de virar comida de
jacaré...
- Eu também não... mas deve ter um jeito de atravessar
isso...
Sim, mesmo que quisessem retornar ao ponto de partida
isso não seria possível... dezenas de passagens se encontravam às suas costas e
elas não tinham a menor ideia de qual seria o caminho correto... engraçado...
para chegarem até ali, parecia que alguém as guiava pelas mãos. Agora, no
entanto...

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