WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS Capítulo Trinta e Seis
WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS
Capítulo Trinta e Seis
- Então o senhor queria nos encontrar...
- Sim... estou com um problema e acho que vocês três
podem me auxiliar...
- Não estou entendendo...
- Calma, vou explicar...vocês lembram dos eventos lá
em Quiririm, a uns cinco, seis anos atrás?
- Em uma situação normal, não me lembraria... na
verdade, não me lembro de muita coisa...
- Eu me lembro que o senhor ajudou minha mãe... e isso
não vou esquecer nunca...
- Só cumpri meu dever...
- A única coisa que me lembro, que marcou de verdade
minha vida, foi a mudança que as meninas fizeram para mim...
- Ora, Rose... seu marido era um traste...
- Sério que vocês não se lembram de nada?
- Bem, eu sei que o senhor, meu pai e o delegado
viviam se reunindo na delegacia. E, se não me engano a gente participou de uma
dessas reuniões...
- Também acho que me lembro...
- Se não me engano, tinha mais uma pessoa... mas não
consigo me recordar dela...
- Eu sei que nós três saímos uma noite, depois de uma
dessas reuniões... e quando me dei conta, estava na minha cama, dormindo....
- Sabe que aconteceu a mesma coisa comigo?
- Comigo, também... a gente saiu da cidade e, de
repente...
- Tudo bem, meninas.... vocês devem se lembrar da professora...
- Que professora?
- A namorada do médico...
- Seu Juvêncio, me desculpe... mas não me lembro de
nenhuma professora... ainda mais namorando com um médico...
Juvêncio ficou meio desnorteado. Quer dizer que as
moças não se lembravam de ter participado da resolução do caso dos animais
fantásticos da cidade? O mais incrível é que não se lembravam nem mesmo
da Deusa que caminhava entre eles... será que...
- Então vocês não lembram da batalha...
- Que batalha?
Depois dessa resposta, Juvêncio achou mais prudente
deixar a conversa de lado... precisava do auxílio das moças, e precisava que
elas se lembrassem de suas ações anteriores.... mas não era insistindo nesse
momento que conseguiria seu intento...
- Já conhecem a cidade?
- Não... é a primeira vez que passamos por aqui....
- Qual é o nome dela, seu Juvêncio?
- Espírito Santo do Pinhal...
- Por aqui tem bastante pinheiro, não?
- Por isso o nome, né, sua boba?
- Graça...
- Meninas... posso convidá-las a me acompanharem até
uma aldeia indígena?
- Claro...
- Vai ser legal....
- Pois então, amanhã a gente vai até uma aldeia, que
fica aqui perto... vocês vão gostar...
- Se a gente não gostar, te falamos...
E todos se recolheram... todos , não, só as moças.
Juvêncio permaneceu no salão. Afinal, o delegado, seu ajudante e o doutor ainda
estavam sentados na mesa... Conversaram por mais algum tempo, Juvêncio
explicando quem eram as recém chegadas e por que eram importantes para ele.
Finalmente os visitantes foram embora e Juvêncio também se recolheu...
- Conversa estranha a do delegado, não é mesmo?
- É... mas sabe de uma coisa, Bel?
- O que?
- Essa professora da qual ele falou...
- O que é que tem?
- Lembra quando fui contratada para dar aula na
Escola?
- Sim, lembro...
- Bom, a minha turma não tinha professora... não que
alguém se lembrasse...
- E dai?
- Dai que... os alunos tiveram alguém que os estava
ensinando... aliás, estavam até mais adiantados que os alunos das outras
classes...
- E...?
- E eles também não se lembravam da professora anterior...
a Diretora ficou sem saber o que fazer, quando descobriu que tinha uma classe
ativa na escola sem nenhum docente responsável. Mas as provas, as lições...
estavam tudo em dia....
- E...?
- E a única assinatura que constava em todos os
documentos dos alunos era da Diretora. Era como se a classe estivesse todo
aquele tempo sem nenhuma professora, mas as lições estavam sendo ministradas
normalmente...
- Quer dizer que você substituiu uma professora
fantasma...
- Mais ou menos isso. Sabias que a Diretora me pediu
para assinar todos os documentos das crianças... desde o início do ano letivo?
- E você assinou?
- Claro... ela me pagou por isso...
- Nossa...
- E agora o delegado vem com essa história...
- Olha, eu me lembro que na noite que a gente se
reuniu com o grupo na delegacia tinha alguma coisa estranha acontecendo...
- Eu, também... só não consigo lembrar o que é...
- Vamos fazer uma coisa, meninas?
- O que?
- Vamos dormir... depois pensamos nisso...
- Tem razão... não vale a pena perder o sono por algumas
coisas...
- Concordo com vocês... boa noite...
Juvêncio estava em seu quarto, fumando um cigarro.
Enquanto vias as espirais de fumaça subindo pelo ar, ficava pensando na
conversa que tivera com as três garotas. Sim, elas estavam sendo sinceras quando
diziam que não se lembravam de nada. Pensando bem, quando houve a intervenção
das garotas no caso de Quiririm ela pareciam como que adormecidas. Em nenhum
momento fizeram menção de ter reconhecido qualquer um do grupo de justiceiros.
Izabel era muito apegada ao pai, e no entanto naquele dia não lhe dirigiu nem
mesmo um olhar. Fazia sentido. Afinal, a Deusa havia dito que ninguém, exceto o
grupo de justiceiros iria se lembrar dos eventos daquele dia. E as moças não
faziam parte do grupo. Como é que a Deusa as havia chamado mesmo?
"Guardiãs"... não, era outra palavra... parecia alemão... parecia um
nome de mulher... como era mesmo? Vi... Ve... Verô... não, não... lembrou,
finalmente... ela as chamou de "Valquírias"... onde ele já havia
ouvido esse nome? Isso lhe lembrava alguma coisa, mas não sabia o que era...
bem, uma boa noite de sono poderia refrescar sua memória... com certeza no dia
seguinte conseguiria se lembrar de tudo que precisava saber... ultimamente era
assim... portanto, o melhor era descansar um pouco...
Não demorou muito e Juvêncio estava cavalgando no
mundo dos sonhos. Corisco galopava a rédeas soltas pela campina, acompanhado de
Saci, o cavalo fiel de Juquinha. Os dois estavam cavalgando já a algum tempo,
atrás de... estavam atrás de alguma coisa? Aparentemente, não. Parecia estarem
cavalgando apenas por prazer. Espera... estavam apostando uma corrida.
Juvêncio, montado em Corisco, tinha uma ligeira vantagem sobre seu parceiro...
mas Juquinha estava em seus calcanhares. Sim, os dois equinos eram realmente
muito velozes. Poucos cavalos conseguiam acompanhá-los, ou mesmo escapar de uma
perseguição efetuada por aqueles dois... Juvêncio sorria... deu um tapinha no
dorso de seu animal, e o mesmo diminuiu sua velocidade, permitindo que Saci o
ultrapasse e Juquinha comemorasse a vitória sobre seu companheiro... sim,
estava uma tarde realmente agradável...
Juvêncio sorria em sua cama, imerso em seus sonhos.
Bons tempos que já haviam passado... Juquinha, ainda um garoto, seguia com
atenção os conselhos de seu amigo e protetor. Juvêncio criava o garoto desde
que sua família havia sido vitimada por um bando de malfeitores. E, apesar de
viverem correndo pelo sertão fazendo justiça para quem necessitasse, Juvêncio
jamais descuidou da educação de seu pupilo. Se tudo desse certo em sua vida, um
dia o garoto seria um doutor...

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