WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS Capítulo Quarenta e Nove
WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS
Capítulo Quarenta e Nove
- Não sou de reclamar... mas que demora...
Era Juvêncio, ao lado do pajé e de Torquato....
- Precisa esperar, meu filho... coisas de
cunhã...apenas cunhã pode resolver!
- Não entendi....
- As cunhatã de Ceci vão ajudar as moças da cidade...
- Juvêncio, o que o pajé quer dizer...
- Já entendi, Torquato.... coisas de mulheres são
resolvidas entre mulheres....
- Isso. Para que as moças se lembrem daquilo que você
precisa saber, somente as filhas da Lua podem ajudar...
- Pensei que vocês não adorassem nenhum tipo de Deus,
além da natureza...
- E não adoramos. Simplesmente conversamos com os
espíritos da natureza. Ceci é a Lua... e é a força feminina que nos auxilia
quando Guaraci não tem como nos ajudar sozinho... porque na vida, Guaraci e
Ceci muitas vezes tem que se dar as mãos para que as coisas possam ser
realizadas.
- Você quer dizer....
- Nem o homem nem a mulher tem o poder de criar o que
quer que seja sozinho... os dois tem que se unir para que a força criadora do
Universo possa agir...
Juvêncio ficou calado por alguns instantes... e não é
que Torquato estava filosófico esta manhã? Geralmente calado, respondia as
duvidas de Juvêncio com uma presteza tal que surpreendia o Delegado. Nesse meio
tempo o pajé continuava sentado, pernas cruzadas, olhos cerrados, inalando a
fumaça que vinha de uma pequena fogueira que fizera em sua frente e que jogara
algumas sementes. De vez em quando o agente da lei lançava um olhar interrogativo
em direção ao pajé... mas nada além do silêncio voltava para ele à guisa de
resposta.
- Você está curioso, não é?
- Como assim?
- Delegado, eu sei que nossos costumes são estranhos
para o senhor...
- Imagina... a muito deixei de estranhar as coisas que
presencio por esse mundo afora...
- Mas é como eu disse... as meninas estão encantadas
pela Iara...e somente Ceci pode quebrar esse encanto.
- Mas...?
- Mas apenas as cunhatã podem estar ao lado delas
durante o processo.
- Eu já entendi... e nesse meio tempo?...
- Bom, a gente podia repassar aquilo que já
descobrimos sobre Anhangá...
- Que seria?....
- Bem, o senhor descobriu que ele tem penas...
- Eu não chamaria aquilo de penas...
- ...o que significa que, de repente, o bicho pode ter
a aparência de uma ave... já pensou nisso?
- Não seria um tanto... estranho?
- Seria, claro que seria... mas o que não é estranho,
nessa história?
- Você está certo... mas como seria essa ave?
- Não faço ideia... pelo tamanho que o senhor
descreveu, seria quase como uma seriema...
- E?...
- E... bem, eu não sei o que pensar.
- Eu também, não. Uma seriema....
- Eu não disse que era uma seriema...
- Eu sei... mas fico aqui imaginando...
Os dois se calaram. O velho pajé finalmente abriu os
olhos. Continuou mais alguns segundos na mesma posição, então esticou os
braços, bocejou e finalmente levantou-se... começou uma sessão de alongamento,
como se fosse um gato. Finalmente, depois de algum tempo, dirigiu-se aos dois
homens...
- As cunhã já vão sair da oca...
- Como o senhor sabe?
- Juvêncio, ele estava ligado ao mundo espiritual...
Juvêncio olhou para Torquato. Percebeu que este
falava sério. Resolveu ficar calado por algum tempo, mesmo porque o pajé não se
dignou a responder-lhe. Depois de mais algum tempo... uma meia hora, uns vinte
minutos, as seis moças saíram da oca na qual estavam. E, diferentemente da
maneira que chegaram à aldeia, agora seus olhos expressavam toda a vivacidade
de antes. Ah, sim, talvez estejam se perguntando porque eu disse "as seis
moças"... é que três sacerdotisas (seriam sacerdotisas?) da tribo entraram
junto com as meninas, para acompanhá-las em sua jornada espiritual de
revelação. O pajé ficou fora, pois não era permitido aos homens participar da
cerimônia de Ceci... mas ele pôde acompanhar sua jornada pelo mundo
espiritual, até mesmo para poder orientá-las sobre quais caminhos eram seguros
e quais eram armadilhas... mas é claro que você só irá acreditar nisso se
você crê em viagens astrais e outras coisinhas...
Izabel afastou-se do grupo e foi até seu cavalo. Abriu
seu alforge, retirou um envelope que ali estava e voltou entregando para aquela
que parecia ser a líder das cunhã. A moça levou o envelope até seu peito,
fechou os olhos e ficou alguns instantes quieta, como se estivesse rezando,
fazendo uma oração. Após tal gesto, levou o envelope até o pajé, que o abençoou
e finalmente o abriu, retirando de dentro do mesmo um medalhão. Dividiu-o em
três, que instantaneamente se tornaram pingentes. Entregou um pingente para
cada moça, em uma pequena solenidade... Juvêncio apenas observava aquele
festival de rapapés...
Finalmente o feiticeiro dirigiu-se aos quatro... iria
falar com Juvêncio e com a moças, ao mesmo tempo...
- Desde o momento em que Araci desceu a Terra e ajudou
Tupã a criar tudo o que existe, estes três amuletos também foram criados... são
uma proteção contra os feitiços das Tiriricas e de Pirarucu, eterno inimigo de
Iara. Vocês três compartilham um poder único, o poder da vida sobre a morte...
esse dom lhes foi concedido por Ceci... e enquanto as três se mantiverem
unidas, nenhuma força do mal, terrena ou do além, poderá atingi-las. Mas seus
amuletos de proteção só as ajudarão enquanto estiverem juntas, não se esqueçam
nunca disso...
- O senhor quer dizer que...
- Sim, minha filha... se vocês estiverem longe uma das
outras, Ceci não poderá protege-las... pois a pedra é um ser único e para poder
ajudar, tem que estar completo...
- O senhor não pode fechar o corpo das moças?
- Não, meu rapaz... esse tipo de magia não é de Tupã...
- Então eu posso levá-la a um...
- Meu filho, não se pode misturar magia. Elas são
filhas de Ceci, protegidas de Iara. Se você fizer isso que está pensando...
estará condenando essas moças a morte...
- Por que?
- São magias diferentes... e não costuma dar muito
certo misturar magias e deuses de origens tão distintas...
- Mas elas já são protegidas por um tipo de magia
assim...
- Não, não são... Elas são espíritos consagrados ao
Deus Tupã, e sua principal tarefa é escoltar as almas dos mortos até seu reino...
mas não contam com nenhuma proteção, desse ou do outro mundo...
- Pensei que...
- Como eu disse, elas não tem nenhuma proteção contra
as força do mal, se estiverem separadas. Para que os espíritos possam
protege-las, tem que estar sempre uma ao lado da outra...
- Nossa...
- E nunca... eu disse nunca...devem tirar a lágrima de
Ceci de seu pescoço, pois aí estarão realmente sozinhas em suas batalhas...
Depois de várias recomendações às três moças,
finalmente o pajé os liberou para seguirem viagem. Juvêncio abria a fila,
Torquato a fechava. Era como se estivessem protegendo as três Marias de
qualquer coisa que pudesse acontecer... mas Juvêncio sabia que as três não
precisavam de proteção. Eram fortes e, além disso, muito unidas. Tudo daria
certo.
Comentários
Postar um comentário