A TAÇA DE CRISTAL - Capítulo Seis
Capítulo Seis
Ricardo
não estava com pressa de voltar para casa, quando acabou seu expediente. Fez a
última viagem do dia por volta das oito horas da noite, depois que os passageiros
desceram, desligou o itinerário do carro e dirigiu-se à garagem. Devido ao
horário ele sabia que seria um pouco demorado, mas não estava preocupado com
isso. Afinal, depois que tudo estivesse certo com relatórios e féria do dia,
sua intenção era ir ao bar tomar algumas para esquecer os problemas do dia
anterior. Realmente não tinha nenhuma vontade de retornar ao lar,
principalmente depois da briga que tivera com sua esposa.
Ele
não conseguia lembrar como a discussão começou. Sabia que a culpa era sua, mas
não entendia o porque. Talvez pelo fato de que estivesse bêbado quando chegou
em sua casa… puxando um pouco mais a memória, lembrou-se do… incidente… quando
sua esposa havia pego o ônibus que ele dirigia. E justo naquela viagem Roseli
tinha que inventar de lhe dar um beijo quando desceu do ônibus… e sem pagar a
passagem, ainda por cima! O problema é que ela fazia isso todo dia, já era
automático. É claro que isso se devia ao fato de os dois já estarem namorando a
quase dois anos, e dessa relação uma filha deles ter nascido. Engraçado, ele
nunca quisera ter filhos com Cecília, e com a Rose simplesmente aconteceu…
Tinham uma garotinha linda e forte, para quem deram o nome de Letícia. A bem da
verdade, de inicio ele queria por o nome da menina de Diana, e ela queria
Melissa… no final, entraram em acordo sobre o nome escolhido…ela já tinha quase
um aninho, e realmente era muito linda…
É
claro que Cecília não poderia nem sonhar com isso, pois se ela viesse a
descobrir que Ricardo tinha outra família, tudo desabaria como um castelo de
cartas. E, embora não parecesse, ele amava sua esposa.
Bem,
ele estava junto com seus amigos no barzinho em frente a garagem. Já era a
quinta garrafa de cerveja que esvaziavam, sem contar as várias doses de cachaça
consumidas entre uma garrafa e outra. Não é que ele gostasse de cachaça. Na
verdade, detestava. Mas a maioria de seus amigos gostava de beber uma caninha e
então, para não “fazer desfeita” aos amigos, acabava entornando alguns goles de
aguardente. O problema é que subia rápido demais. Então ele acabava tendo que
dar um tempo até recuperar o controle das pernas para que pudesse voltar para
casa.
Lá
pela meia noite já estava bastante “brisado”, mas era hora de ir dormir para
pegar cedo no serviço. Seu carro estava escalado para sair da garagem às cinco
e meia, então ele tinha apenas cinco horas até ter que retornar para o
trabalho. Trocando as pernas, saiu a rua, esperando o Uber que havia chamado
para conseguir chegar em casa.
Finalmente
chegou. Pagou o motorista e desceu. Estava tudo escuro, o que estranhou, a
princípio. Afinal, Cecília sempre deixava a luz do alpendre acesa. Mas não
naquele dia. Com uma certa dificuldade conseguiu finalmente abrir a porta. Com
aquela voz pastosa, característica de uma pessoa embriagada, chamou pela esposa
diversas vezes. Nenhuma resposta. Começou a se exaltar, proferiu impropérios em
altos brados, mas tudo continuava no mais sepulcral dos silêncios…
Chegou
finalmente à porta do quarto, furioso porque a esposa não o recebera. Estava
prestes a agredi-la novamente quando percebeu que, além dele, não havia mais
ninguém no recinto. Começou a berrar impropérios ao léu, mas ninguém o ouvia. Depois de alguns minutos gritando
como louco, caiu sua ficha… ele estava
sozinho. Mas, como? Por que?
Sentou-se
na cama, completamente perdido. Onde Cecília poderia estar a essa hora? Será
que foi para a casa de seus pais? Não, com certeza, não. Ainda mais depois que
teve aquela briga feia com sua mãe e com Estela, para defender Helena. Tanto
Cecília quanto Helena não suportavam a Estela, e essa contribuía ao máximo para
que a antipatia das irmãs aumentasse cada dia mais…
Bem,
então ele podia descartar a casa da sogra… para onde ela teria ido? Casa de
alguma amiga? Mas qual? E por que ela teria… espera, isso era obvio… a briga.
Mas… só por causa daquela discussãozinha boba? Não dava para entender… “Bem,
sabe de uma coisa”, pensou ele, “eu vou é dormir… afinal, tenho que levantar
daqui a pouco…”
O
som do relógio da parede reverberava pelo seu cérebro, como se mil bigornas
estivessem sendo golpeadas. O nome da esposa escapava de seus lábios a todo
instante. Com aquela voz chorosa ele chamava por ela…
O
som alto do despertador o fez levantar correndo da cama. Conferiu a hora. Eram
quatro e meia da madrugada, tempo suficiente para tomar um banho, um café
quentinho e sair correndo para a garagem. Ele tinha que parar com essa mania de
ir encher a cara em dia de trabalho.
Estava um caco só, mas tinha que ir para a garagem. Afinal, sua filha precisava
de algumas coisas, e para isso, era necessário ganhar dinheiro.
Enquanto
se banhava, gritou para que Cecilia preparasse seu desjejum. Estranhou quando
não teve nenhuma resposta da esposa. “Nossa, ela está tão zangada assim que nem
se digna a me responder?” pensou ele… então, de repente… com num relâmpago
voltou a sua memória e lembrou-se que sua esposa não havia dormido em casa
nessa noite. Então a preocupação veio forte… o que teria acontecido com
Cecília? Ela nunca havia feito isso, antes. Porque iria ficar fora de casa a
noite, assim? Por causa de uma simples briguinha? De uma bobagem dessas?
Ricardo
se vestiu e ganhou a rua, sem tomar café, mesmo. Não tinha mais tempo para
isso. Ainda estava meio tonto, culpa das bebidas da noite anterior…

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