68 - NO DIA MAIS CLARO, NA NOITE MAIS DENSA...




68 - NO DIA MAIS CLARO, NA NOITE MAIS DENSA...

 

Alice saiu da sala tranquilamente. Sim, por alguns momentos a raiva dominou seu ser, principalmente quando aquele matuto (mas será que era mesmo um matuto? Tudo indicava que aquele homem era bem mais do que aparentava...)dirigiu-se a ela, falando em sua língua nativa... afinal, quem era Zacarias, na realidade? Quando ia passando pelo salão viu o balcão de doces e não se conteve... um bolo de banana, recém saído do forno chamou a sua atenção. Pediu o doce.... e o comeu inteiro, sozinha. Como já havia dito antes, a professorinha era simplesmente louca por doces... e era a única coisa que a acalmava, quando alguma coisa a tirava do sério. Não era o caso, desta vez... ela saiu da sala de reunião porque realmente tinha algo a fazer... não tinha certeza sobre o que seria... as ideias estavam um pouco embaralhadas... era como se uma nuvem se espalhasse por toda a sua mente e não a deixasse pensar corretamente. Sim, ela sabia que tinha que fazer algo... mas, não... ela não tinha a menor noção sobre o que seria. Alice acabou de devorar o doce, pagou por ele, e ganhou as ruas. O tempo realmente não prometia nada de bom... os relâmpagos cortavam o céu de tal forma que pareciam querer romper o véu do firmamento. E o vento gelado vinha cortando tudo à sua frente. Mas, estranho, pensou a moça... para ela aquilo parecia tão reconfortante... sim, em uma situação normal ela poderia até estar apavorada, devido à fúria do tempo, mas estava estranhamente calma....

Sem perceber, caminhava em direção à saída da vila. Seus passos eram rápidos, decididos. E quando se deu conta, já estava fora da visão de alguém que porventura estivesse se aventurando pelas ruas do vilarejo. E, de repente, uma transformação começou a tomar conta da moça... sua tez tornou-se mais clara, seus cabelos cresceram um pouco mais, ela ficou um pouco mais alta do que já era, e sua roupas modificaram-se... o conjunto de saia e blusa azul que estava usando, todo bordado com flores e borboletas, tornou-se um vestido longo branco, quase translúcido... e, no final, uma luminosidade intensa circundou-a totalmente, deixando-a dentro de uma bola de fogo... que de forma alguma a magoava. Então, sem que se soubesse como, a bola de fogo ganhou os céus, cortando o manto negro da noite...

- Seu Zacarias, será que o senhor pode se explicar, por favor?

- O que aconteceu aqui? Porque a professora se foi?

- Pessoal, fiquem calmos... a professora tinha uma tarefa e foi cumpri-la....

- Mas que raio de tarefa era essa, seu Zacarias?

- No meio da noite? Com esse tempo?

- Quem seria doido de fazer o que quer que fosse com esse tempo?  Com a ameaça de desabar um aguaceiro de uma hora para outra?

- Pessoal, não vai cair uma unica gota de água hoje...

- Como não? E essas nuvens carregadas, o que são?

- Não são chuva, isso eu posso afirmar para vocês... 

- Então, o que é?

- Isso, meus amigos, é a manifestação do poder de Alice, a professorinha...

 Um silêncio sepulcral tomou conta da sala. Todos ficaram sem entender exatamente o que Zacarias queria dizer com aquilo, mas o medo de saber a verdade os impedia de perguntar. E cada um deles ficava imerso em seus pensamentos... tentavam compreender as palavras  de Zacarias, mas por mais que tentassem, nada fazia sentido... o primeiro a romper a calmaria forçada que imperava na sala foi Alberto...

- Mas que poder, Zacarias? Que loucura é essa?

- Doutor, sinto muito te dizer assim... mas a sua namorada é uma vampira... e hoje será a batalha entre nosso grupo e o dela...

A fala de Zacarias atingiu Alberto como um choque... ficou tão desconcertado com o que seu companheiro falou que não sabia o que falar... como assim, Alice  era um "vampiro"?  Vampiros não existem... e, se existissem, com certeza Alice não poderia ser um deles. Afinal, os dois passaram algumas horas agradáveis quando o sol ainda estava em seu ponto mais alto, e Alice se deliciava com o calor que emanava do mesmo... e, depois disso, ele a acompanhou até a Igreja, onde ela tomou a Santa Comunhão... não, Zacarias só poderia estar louco com a sua premissa...

- Seu Zacarias, o que o senhor está falando não tem sentido nenhum... 

- E por que não, doutor?

- Ela vai à igreja... recebe a benção do padre... pode ficar no sol a vontade...

- E...?

- E, pelo que eu sei, essas criaturas não podem fazer isso...

- Quisera que fosse realmente assim, doutor Alberto... mas infelizmente, não é....a única coisa que tem o poder de parar esses seres, meu amigo... são balas de prata...

- Balas de prata? E por que?

- Porque, eu não sei... mas funciona.... e antes que vocês fiquem pensando muito... hoje vamos enfrentar dois lobisomens, três papafigos, um curupira... esse não é tão perigoso quanto os outros... só estará dando apoio aos monstros para que eles possam nos atacar... ah, sim, não posso me esquecer... dois boi-tatás e uma mula sem cabeça... estes ultimos dois são os mais perigosos... ah, é... estava me esquecendo... a gente vai enfrentar a maestrina dessa fuzurca toda, é claro... e adivinhem quem será? 

- A professora?

- Não, minha gente... a professora não existe.... a gente vai enfrentar a vampira chefe...

- Mas... se o senhor sabe que ela é a chefe do grupo, e se ela já estava aqui... por que a deixou ir?

- Simples...  para destruir a mulher de branco precisamos esperar que as duas partes estejam unidas... se destruirmos uma das partes apenas, na verdade não estamos destruindo nada... sua essência volta para o corpo não ferido, e depois de algum tempo o ciclo recomeça...

 - Mas... onde a gente vai encontrar balas de prata essa hora? E como vamos encontrar a profes... a mulher de branco?

- Primeiro quero que vocês coloquem suas armas e munições sobre a mesa...

Todos estranharam o pedido... o primeiro a colocar suas armas sobre a mesa foi Zacarias, é claro. Desafivelou seu cinturão, arrumou sua faca junto aos revólveres e até o laço que usava na peleja do dia a dia foi depositado ali...

- Pessoal, prometi a vocês que hoje iriam presenciar uma transmutação... pois bem, vocês tem que confiar...

Meio sem saber se deveriam ou não obedecer as ordens de Zacarias, todos fizeram o que ele pediu... e logo a pilha de armas se fazia sobre a mesa... quando todos já estavam desarmados, chamou as três moças para perto de si... aí é que o grupo estranhou, mesmo... o que Zacarias esperava? Que em um passe de mágica as moças transformassem as coisas ao seu redor, como se tivessem o toque de Midas? Sim, a coisa estava cada vez mais surreal... a cada segundo que passava, Alberto sentia que ali não era o seu lugar... ele era um homem da ciência... e aquilo ia contra tudo o que ele, por anos , aprendera e praticara... Duarte realmente não sabia o que pensar... e por esse motivo resolveu não pensar em nada. O que viesse à frente, enfrentaria. E, Juvêncio... bem, Juvêncio esperava alguma coisa do tipo acontecer desde o dia em que colocou os pés naquela cidade. Ele sabia que nada ali era o que parecia. E isso estava se provando agora...

- Bem... e agora?
 

Era Duarte, tentando saber qual o próximo passo... Zacarias não respondeu... limitou-se a pedir às moças que estendessem as mãos sobre a mesa, e que recitassem umas palavras que ele falaria... e assim foi feito... no final, quando todos foram pegar suas armas de volta... a surpresa estampou-se no rosto de todos.... afinal o chumbo se tornara prata....

 


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