A TAÇA DE CRISTAL Capítulo quatro
A TAÇA DE CRISTAL
Capítulo quatro
Cecília estava em frente ao guichê de uma empresa de ônibus aleatória.
Resolveu que pegaria o primeiro carro que estivesse de partida, de preferência,
para o mais longe possível. Sim, porque se fosse para algum lugar próximo, com
certeza Ricardo iria procurá-la. E a convenceria a voltar. Só que, para ela,
não tinha mais volta. O tapa que recebeu no rosto quando perguntou quem
era a zinha que o beijara de manhã foi a
gota d’agua que fez transbordar o copo de um relacionamento que a muito se
desgastara. Afinal, se para ele aquela mulher no coletivo era assim tão
importante que justificava agredir sua esposa, então ela nada mais tinha a
fazer naquela casa. E ela não voltaria para sua família porque Ricardo era
muito querido por seus pais e irmãos, e ela sabia que tentariam convence-la a
perdoa-lo, coisa que não estava disposta a fazer. Nem que ele viesse de joelhos
implorando seu perdão, ela o perdoaria. Não tinha o porque fazer isso. Afinal,
em quatro anos de casados, nunca tiveram filhos. Se não tinham descendentes que
os ligassem fisica e emocionalmente, porque ela iria insistir em algo que só
lhe trouxera decepção?
A atendente perguntou qual seria o destino de sua viagem, ela respondeu
que queria uma passagem para o mais longe possível, e de preferência no
primeiro carro que saísse. A moça consultou a tabela de horários e a informou
que a saída mais próxima só aconteceria às dez da noite, afinal era uma linha
interestadual e as partidas programadas para aquela manhã já haviam sido
cumpridas…
Cecilia sentou-se em um dos bancos da rodoviária e ficou pensativa,
decidindo o que realmente iria fazer. O relogio da parede marcava duas da
tarde. “Nossa”, pensou ela, “as horas passaram voando! Se eu não me decidir
logo, daqui a pouco já será dez da noite…”
Resolveu tentar mais uma vez… dirigiu-se ao guiche de outra empresa, e
perguntou se tinha algum partida programada para aquele horário. O atendente
informou que, dali a alguns minutos, sairia um carro com destino à cidade de
Tocantins, em Minas Gerais. Ela ficou pensativa. “Bem, eu nunca fui para essa
cidade, não conheço ninguém por lá… jamais pensarão em me procurar nesse
lugar…” ato contínuo, pagou pela passagem, pegou suas malas e dirigiu-se ao
portão de embarque. O ônibus estava encostando na plataforma, portanto ela
caminhou devagar. Tinha tempo até que os outros passageiros embarcassem, para
que pudesse se acomodar…
Entregou as malas para o despachante, pegou seus tickets, guardou-os na
bolsa. Os passageiros ainda estavam entrando no carro, Cecília esperou um pouco
mais. Respirou fundo, entregou a passagem para o motorista, apresentou seus
documentos conforme ele lhe solicitou e finalmente adentrou no ônibus. Procurou
seu assento, e deu graças aos céus por estar no fundo e não ter ninguém ao seu
lado durante a viagem…
Sentou-se, prendeu o cinto de segurança, como o motorista a orientou, e
finalmente relaxou um pouco. Iria para um lugar que não conhecia, mas a gente
vive desbravando lugares para nós desconhecidos a todo momento, não é mesmo?
Afinal, que diferença faz você ir para um lugar novo? Ele só será novo quando
você chegar lá. Depois de algum tempo, passará a ser um lugar comum em sua
vida. E, com esse pensamento, ela fechou os olhos e adormeceu…

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