A TAÇA DE CRISTAL - Capítulo Vinte e Quatro
A TAÇA DE CRISTAL
Capítulo Vinte e Quatro
Durante a corrida, Helena acabou tropeçando em
uma raiz saliente de uma árvore e foi ao chão, seu rosto ferido pelas
folhagens e pedras espalhadas por todo o solo... o gosto ácido de terra molhada
e sangue ainda quente se espalharam por sua boca. Ela não conseguia se
controlar e algumas lágrimas de desespero rolavam por sua face. Mas
conseguiu se recompor rapidamente. Sentou-se sob a copa da árvore onde tropeçou
e tentou ouvir algum som, de qualquer lugar... e tudo que tinha como retorno
era o silêncio ensurdecedor. Não se ouvia nenhum barulho característico da mata
... só o nada... era noite, mas ainda assim não conseguia ouvir os sons
noturnos tão desejados... seu coração parecia querer saltar fora pela boca, e
para se acalmar, começou a acertar as dobras de sua saia com a ponta dos
dedos. Sua saia estava suja, amassada, Helena percebia mesmo na penumbra.
Seu joelho estava machucado, sua pulsação acelerada... ela se recostou no
tronco da árvore e fechou os olhos, tentando relaxar... mesmo à noite, Helena
conseguia perceber a beleza selvagem do lugar. Não fosse a situação pela qual
passava, e se sentiria no verdadeiro Paraíso na Terra... massageou o joelho
ferido e não conseguiu conter o gemido que escapou de seus lábios. Tentava
escutar a mata, e apenas aquele silêncio inquietante se manifestando... fazia
de tudo para se acalmar, precisava se acalmar, pois certas coisas não existem,
não podem existir. Quando se é criança, quando se tem cinco, seis anos, tudo é
normal, o mundo é mágico. Mas uma mulher adulta, com vinte e cinco anos, não
pode se deixar levar por fantasias.... mas, no entanto, ela tinha certeza do
que viu... ela sabia estar no meio de um pesadelo, mas as sensações eram
tão vívidas... os monstros imaginários da infância não deveriam ter o poder de
atacá-la, e no entanto...
Helena procurou se levantar, se apoiando na
árvore, tentando recuperar o equilíbrio. Deu um passo, o pé lhe doeu
horrivelmente, seu joelho estava latejante. Mas ela sabia que tinha que sair
dali, pois ouviu um barulho que não lhe agradou de forma alguma... no principio
era apenas um barulho fraco, mas ia aumentando a intensidade. Ela não saberia
dizer se era o medo que a fazia sentir-se assim, mas de repente a noite ficou
mais escura, mais pesada.... sua pulsação começou a acelerar novamente, um
gosto ruim, amargo tomou conta de sua boca. Apesar da dor que sentia em sua
perna, começou a correr, tentando fugir daquilo que tanto a apavorava...
Sua saia ficou presa em um galho, ela a puxou
violentamente e continuou sua fuga. O salto de seu sapato se quebrou,
causando-lhe uma nova queda ao chão. Colocou-se de pé como um raio, descalçou
os sapatos, jogou-os na mata e continuou a correr. As pedras e gravetos
machucavam seus pés, mas ela seguia em sua fuga... então...
Uma criatura horrenda surgiu a sua frente... os
olhos vermelhos como brasa a fitavam... um simulacro de riso surgiu no que
seria o rosto da criatura, e ela estendeu suas garras em direção a Helena...
que saltou da cama e caiu no piso...o suor escorria por seu corpo... a moça
estava simplesmente apavorada...
Helena olha o relógio... três horas da
madrugada! Sempre a mesma hora... sempre o mesmo sonho... ela se encontra
perdida em uma floresta, um monstro a persegue... e por muito pouco não
consegue levar a cabo seu intento ... ela sempre acorda no momento do ataque
final... o que ela teria que fazer para conseguir uma noite de sono tranquila?
Será que sua mãe poderia ajudá-la? Não, isso seria loucura... se contasse seus
pesadelos para sua mãe, com certeza acabaria sendo levada para uma igreja e
teria que participar de todas as novenas que ela achasse necessário para
que Helena reconquistasse sua paz de espírito... não, era melhor conversar com
um psiquiatra... e então resolveu que, assim que amanhecesse, marcaria uma
consulta...
Como sabia que não conseguiria adormecer
novamente... não enquanto o pavor do pesadelo estivesse presente em sua alma...
Helena foi até a cozinha, preparar um chá de erva cidreira... aprendera a
receita com sua mãe, pois sempre que estava nervosa, com medo de alguma coisa,
lhe ministrava este chá. Fez bem doce, pois era assim que gostava. Pegou uma
xícara, começou a sorver lentamente a bebida, com o olhar perdido no infinito.
Aos poucos foi se acalmando, mas não o suficiente para voltar para a cama.
Resolveu que iria assistir um filme, de preferencia um que tivesse o dom de
fazê-la dormir novamente. Foi em sua estante e escolheu o filme "Irmão
Sol, Irmã Lua"... a história de São Francisco de Assis e de Santa Clara...
e sabia que seu sono estava garantido, pois nunca passou mais de quinze minutos
em frente a tela de TV quando resolvia assistir a essa história... haviam
outros filmes tão bons quanto, é claro... "E La Nave Va" seria outra
opção...
Helena instalou-se no sofá e cobriu-se com sua
manta favorita... vermelha, toda enfeitada de flores... essa manta a
acompanhava desde pequenina, pelo que sua mãe lhe contou, ela pertencera a seu
pai, quando ele era criança, também... colocou o bule onde estava o chá sobre a
mesinha de centro e serviu-se de mais uma dose. O filme começou a rodar e o
sono foi chegando de mansinho, pouco a pouco... depositou a xícara no mesinha,
ao lado do bule, cobriu-se completamente e aos poucos seus olhos foram se
fechando, e quando se deu conta já eram oito horas da manhã... Meu Deus, era
oito ou oitenta... ou acordava muito cedo... e tres horas realmente era muito
cedo... ou perdia a hora, acordando quase uma hora após a abertura da
loja... e ela era uma das vendedoras que faziam a abertura... enfim,
paciência... teria que enfrentar o olhar de reprovação do gerente... isso se ele
a deixasse trabalhar, já que o atraso seria grande... resolveu que não
adiantaria nada ficar pensando no caso, então ligou para a loja e explicou a
situação... como previra, o gerente a dispensara do expediente... não era
nenhuma bondade, uma vez que ela era comissionada e, se não vendesse,
simplesmente não teria salário... Como o que não tem remédio remediado está,
resolveu não chorar sobre o leite derramado e tratou de ligar para várias
psicólogas, tentando agendar uma consulta. Deu um pouco de trabalho, mas
Helena finalmente conseguiu marcá-la, e o melhor de tudo era que sua consulta
seria naquela tarde, mesmo....

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