A TAÇA DE CRISTAL - Capítulo Vinte e Cinco
A TAÇA DE CRISTAL
Capítulo Vinte e Cinco
- Mas que milagre é esse? De onde você surgiu, menina?
- Sem brincadeiras, papai… ou vou me arrepender de ter vindo
visitá-los…
- Nossa… ultimamente você e suas irmãs andam muito sensíveis…
Ficaram quietos por algum tempo, apenas se fitando. Janete chamou da
cozinha…
- Cecília, vem cá um pouco…
- Já vai começar o interrogatório…
- Calma, Ceci… sua mãe não é tão sem noção, assim…
- Sei…
Cecilia se dirigiu à cozinha. Sua mãe veio ao seu encontro e deu- lhe
um abraço. Ela estava visivelmente emocionada por rever sua filha…
- Minha menininha…mas o que aconteceu com você, minha filha?...
- Nada de excepcional, mamãe… as coisas simplesmente chegaram a um
ponto que não tem mais volta… Chegou uma hora em que percebi que era melhor
deixar o Ricardo para lá e tratar de viver minha vida…
- Mas… como é que as coisas chegaram a esse ponto?
- Não dá para saber, mamãe… as
coisas começam devagar… detalhes insignificantes que vamos deixando pra lá… mas
que vão crescendo, vão crescendo… e quando percebemos, já não temos mais
controle sobre a situação… foi assim que aconteceu…
- Mas… se separar…
- Mamãe, como é que eu vou viver ao lado de uma pessoa na qual não
confio mais? É como eu disse, a situação ficou insustentável…
- Como…?
- Mamãe, ele tem outra família. Tem uma filha com a outra. Como é que
eu podia aceitar isso, me diga, por favor?
- Deus pede para que perdoemos os pecados de nossos semelhantes, para
que possamos ter os nossos perdoados!
- Pelo amor de Deus, mamãe… será que a senhora não consegue entender?
Ele tinha outra! E uma filha de um ano! Entendeu agora, ou preciso desenhar
para a senhora?
Cecília dá as costa para a mãe e volta para a sala. Janete, desolada,
começa a chorar, enquanto inicia uma bateria de orações…
- Que foi, Ceci?
- A mamãe… acha que eu não devia ter largado do Ricardo…
- Bem, você conhece a sua mãe… para ela, o casamento é um sacramento
que não pode e nem deve ser rompido…
- Eu sei, papai… mas até no judaísmo é previsto o divórcio, quando o
casal não combina… e nossa religião é baseada em alguns dogmas do judaísmo,
certo?
- Você sabe que eu não discuto religião… não é a minha praia…
- Sim, eu sei… é uma coisa meio complexa, não é mesmo?
- O que é que é complexo?
- Esse assunto… religião… afinal, todo mundo está certo e todo mundo
está errado, quando se fala nisso…
- É por isso que eu disse, filha… não discuto religião… pois não sei
nada sobre isso e não posso falar de algo que eu não entendo…
- Pensei que o senhor era ateu…
- Quem fala isso é a sua mãe… e você sabe que eu gosto de provocá-la,
não é mesmo?
- É, eu sei… mas a mamãe às vezes exagera… sei lá, às vezes penso que
fé demais não cheira bem…
- Pelo jeito, você gostou mesmo deste filme… até hoje usa o título em
suas conversas…
- Mas foi um filme legal, não foi? E o título resume bem as igrejas, em
geral…
- Filha, não deixe sua mãe te ouvir falar assim…
E os dois riram, imaginando o sermão que Janete aplicaria aos dois por
serem tão hereges. Sentaram-se no sofa e começaram a conversar sobre
amenidades. Um pouco depois, Janete entrou na sala…
- Filha, vou à missa, agora… não quer me acompanhar?
- Deus me livre e guarde… acabei de chegar de viagem, mamãe … quero
descansar um pouco…
- Vai estar aqui quando eu voltar?
- Sim, mamãe… só vou embora à noite…
- Então, depois a gente conversa?
- Sim, mamãe… prometo que te conto tudo o que a senhora quer saber.
Depois do almoço, está bem?
Janete assentiu com a cabeça. Olhou para Mario, acenou e saiu…
- Caramba… a mamãe não muda nunca, não é mesmo?
- Cada um tem o seu jeito, Ceci… esse é o jeito da sua mãe…
- Tudo bem… mas às vezes ela exagera um pouco…
- Porque?
- Ora, porque… ela é muito carola…
- Filha, cada um vê o mundo de um jeito… esse é o jeito da sua mãe…
- Tudo bem, papai… mas querer que eu continue ao lado de um cara que
não só me trai como também tem outra família… aí já é um pouco demais, não
acha?
- Te entendo… mas é que, para sua mãe, o casamento é um sacramento para
a vida toda, onde só a morte pode separar os conjuges…
- O senhor também pensa assim?!..
- Claro que não! Tenha certeza de que, se eu e sua mãe não dessemos
certo, eu não pensaria duas vezes em ir embora…você sabe que não tem como
compartilhar sua vida com alguém em quem não confia…
- Eu sei… mas a mamãe não pensa assim…
- Cada um tem seu jeito…
- O engraçado é que ela nem gosta do Ricardo… por ela, jamais teríamos
nos casado…
- Bem , eu também nunca fui muito com a cara dele… sei lá, sempre me
pareceu meio falso…
- É, acho que posso creditar o fracasso de meu casamento aos meus pais…
- Que é isso?... eu sempre o tratei bem…
- Sim… mas deixando bem claro que não o suportava…
- Ceci…
- O senhor já se esqueceu da primeira vez que ele veio aqui?
- E dá para esquecer?
- Olha, posso afirmar que ele com certeza tentou…
- Eu sei… afinal, mesmo depois de todo o “tratamento especial” que sua
mãe lhe aplicou, ele continuou vindo te visitar aqui em casa…
- É, eu acho que ele realmente gostava de mim… ao menos naquela época…
- Olha, Ceci… eu acho que ele ainda gosta, e muito de você…
- Que jeito estranho de gostar… montando outra família…
- Bem, temos que convir que você também não facilita muito a vida dele
, não…
- Porque?...
- Bem, começou com você decidindo que não queria ter filhos…
- Ainda bem, não? Imagina a minha situação hoje, com uma criança
pequena para cuidar…
- Já pensou que, se tivesse concordado em ter filhos, as coisas
poderiam ter sido diferentes?
- É mesmo? E quem poderia me garantir isso? Afinal, ninguem o obrigou a
me trair com aquela zinha…ou ele foi obrigado a fazer isso?
- Não, claro que não… o que eu quis dizer é que… bem, você entendeu o
que eu quis dizer…
- Sim, entendi… e não concordo com seu pensamento…
Os dois ficaram quietos por alguns momentos, absortos em seus próprios
pensamentos. Enquanto Mario fitava um quadro na parede, Cecília olhava pela
janela.
- Você lembra porque eu tratei mal seu namorado, não?
- Claro… o senhor teve que resgatar a gente lá no fim do mundo…
- Até hoje não consegui entender exatamente o que aconteceu…
- Nossa, papai… é simples… a gente foi no cinema e depois ele resolveu
ir visitar um amigo…
- Mas vocês foram assiistir a ultima sessão do dia… que diabos estavam
pensando, meu Deus?
- Ai, já não sei dizer… olhando hoje o que a gente fez naquele dia,
realmente foi uma idéia de jerico… mas na hora parecia uma idéia legal…
- Mas, legal aonde, menina? Onde já se viu visitar alguém em plena
madrugada?!
- Visitar não é o problema…
- Ah, não? E o que seria problema, então?
- Pegar ônibus errado e não ter condução para voltar….
Os dois riram juntos. Um riso descompromissado, alegre. Fazia tempo que
os dois não passavam uma manhã como essa, tranquila…
- O senhor acha que a mamãe realmente acredita em tudo o que diz?
- Sobre?!
- Ué, sobre fantasmas e igreja…
- Bom, a gente veio de um lugar onde as coisas mais estranhas
aconteciam…
- E o senhor… já viu alguma coisa do tipo?...
- Já…
- E o que o senhor viu?
- Bom, você não vai acreditar…
- Ué, se me contar eu vejo se acredito ou não…
- Uma vez eu ví um lobisomem…
- Igual a esses dos filmes e revistas de terror?
- Uhn? Não, não… o lobisomem não ataca ninguém…
- Bem, nos filmes ele não só
ataca como ainda transmite sua maldição para a vítima, isso quando não a
mata…
- É, mas o nosso lobisomem é um pouco diferente…até no aspecto…
- Como assim?!
- Prá começar, ele não anda ereto, como um ser humano… só anda de
quatro…
- Ahn?
- Olha, você sabe que, antes de me casar com sua mãe, eu viajei muito
pelo sertão. Algumas vezes acabava dormindo ao relento. As vezes, só, outras,
com algum grupo de viajantes…
- E…?
- E foi em uma dessas vezes que dormi no Hotel das Estrelas que avistei
um lobisomem…
- E ele era perigoso?
- Não… na verdade, ele só estava interessado em seu repasto peculiar…
- Como assim?
- Bom, você tem que lembrar que ele é um bicho encantado… portanto,
seus hábitos são um pouco…estranhos. Entende?
- Na verdade, não…
- Bom, eu acho que o bicho pensa que é uma raposa… pois ele adora
atacar os galinheiros. Mas não faz nada com as galinhas. Seu alvo principal são
as fezes delas… é seu manjar favorito…
- Credo, que nojo….
- Lembre-se do que eu falei…
transformado, o bicho deixa de ser uma pessoa. Ele está encantado, portanto
quem está comendo aquela sujeira é o ser sobrenatural, não a pessoa que se
transformou no bicho…
- Ainda assim, é nojento…
- Eu sei… mas a maioria dos animais fazem isso…
- Mas não é um animal, papai… é um ser humano…
- Quem disse isso? Na Lua Cheia, à noite, é um ser místico, não tem
nada de humano… quando o dia estiver amanhecendo ele volta a ser uma pessoa,
mas durante a noite, nem tem consciência disso…
- Tudo bem… é um animal encantado… e com o que ele se parece?
- De verdade? É bem parecido com um urso….
- Hein?..
- Sério…o traseiro fica bem proeminente… pernas curtas…focinho não tão
comprido…
- E…?
- Se você não mexer com ele, não te acontece nada…
- Se mexer…?
- Bem, aí já viu, né? Como te falei, ele é um animal, então vai te atacar…
é sua forma de defesa...
- Tá, tudo bem… então lobisomem existe… suponho que boi-tatá, mula sem
cabeça, saci pererê também existem…
- É claro que sim… mas esses bichos são bem mais brabos que o
lobisomem, isso eu posso te garantir…
- O senhor está zoando da minha cara, não é mesmo?
Cecília começa a rir. Achou a história que seu pai lhe contou
engraçada. Mas, diferentemente da primeira vez, agora ele não riu com a filha.
Na verdade, ficou sério de repente. Era como se as lembranças de sua mocidade tivesse
aflorado de repente, e coisas que preferia ter esquecido retornassem a sua
mente…
- Nossa, papai… o senhor ficou sério, de repente…
- Algumas coisas a gente quer esquecer… mas…
- E o que o senhor queria esquecer, papai?
- Nada demais, minha filha… besteiras que a gente lembra…
- E não vai contar que besteiras
foram essas?
- Melhor não. Algumas coisas devem ficar enterradas no cemitério de
nossas lembranças…
- Uauuu… isso agora me tocou…
E os dois voltaram a se calar, olhando juntos para a janela, como se
quisessem ver no brilho do sol o que o futuro lhes reservava….

Comentários
Postar um comentário