A TAÇA DE CRISTAL - Capítulo Vinte e Três
A TAÇA DE CRISTAL
Capítulo Vinte e Três
Helena estava preocupada, mas não sabia
exatamente com o quê. Desde seu sonho em que encontrara seu amigo na campina,
na noite passada, que a sensação de medo
se instalara em sua alma. Mas medo de quê? Ela não conseguia compreender. Era a
primeira vez, desde que Oscar se fora, que ela ficava com essa sensação após
sonhar com ele. Das outras vêzes que ele lhe aparecera em sonhos, uma paz
indescritivel tomava conta de sua alma, diferente de agora. Era como se , desta
vez, o sonho fosse de mau agouro, prenuncio de acontecimentos ruins… bem, se
acontecesse mais coisas ruins à sua família do que já estava acontecendo…
Cecília se separando de seu marido, Estela grávida… o que mais faltava acontecer?
O ônibus finalmente apareceu no inicio da rua.
Ela fez sinal, ele parou, ela embarcou. Pagou a passagem e foi para o fundo do
ônibus, próxima da porta de desembarque. Sentou-se e ficou pensando na ultima
vez que ela e suas irmãs se reuniram…. As três começaram a conversar e de
repente, do nada, a discussão começou. Por mais que tentasse se lembrar do
motivo da briga, Helena não conseguia. Até onde ela conseguia se lembrar, nada
de diferente foi dito ou feito por nenhuma delas. Mas o fato é que sem mais nem
menos tudo virou uma bagunça. Só não chegaram a sair no tapa porque seus pais,
assim que ouviram as vozes exaltadas na sala, trataram de separar as irmãs e
despachar cada uma para um canto. Quando finalmente os ânimos se acalmaram,
Estela subiu para seu quarto e não saiu mais de lá. Cecília ficou mais um
pouco, conversando com seus pais e Helena, e então saiu. Sobrou apenas Helena.
Seus pais queriam entender o que havia acontecido, mas ela não conseguia
explicar, pelo simples fato de que não sabia realmente qual fora a causa da
discussão. Explodiu. Aconteceu…
Finalmente chegou em seu ponto. Desceu.
Caminhou em direção à sua casa. Quanto mais se aproximava de seu lar, mais a
sensação de medo tomava conta de seu ser. E realmente não havia motivo para
isso. A rua estava movimentada, cheia de pessoas conversando, rindo, ouvindo
música. A noite estava bem clara, lua cheia, iluminando quase tanto quanto o
sol… sem contar as luzes dos postes. Mas aquela sensação de incômodo não a
abandonava. Se tivesse algum outro lugar para ir, não pensaria duas vezes…
chegou ao portão, entrou e se dirigiu a porta da sala. Agora estava suando
frio, tal o pavor que sentia. Mas pavor… medo de que? Não havia nada que
justificasse essa sensação estranha… girou a chave, destrancando a fechadura.
Abriu a porta, entrou e fechou-a em seguida. Então uma sensação de alívio tomou
conta de seu ser. Sentou-se no sofá e ficou ali parada por algum tempo, imersa
em seus pensamentos. Já não havia nenhuma sensação de desconforto como sentira
a alguns minutos atrás. Só aquela paz que toma conta de nossa alma, quando nos
sentimos realmente seguros…
Mario e Janete estavam como dois tigres
enjaulados, andando de um lado para o
outro. Não falavam nada, apenas caminhavam em circulos, um seguindo o outro. Em
determinado momento, pararam no meio da sala.Mario se voltou para sua esposa.Os
dois se olharam, então foram se sentar…
- Coisa mais sem graça…
- O que?
- Nós dois… fazendo roda no meio da sala…parece
aqueles desenhos do Tio Patinhas…
- Concordo, Jane… foi meio estranho, mesmo.
Bem, a gente estava tentando pensar, não é mesmo?
- Sim, mas… não dava pra pensar parados?
- Sei lá… eu comecei a andar e você me
seguiu…eu não mandei, você foi porque quis…
- Tudo bem… mas você concorda que foi meio
estranho…
- Sim, sem dúvida. Mas pelo menos sei o que
temos que fazer.
- Que seria?!...
- Visitar os pais do Jairo…
- A esta hora? Você está louco?
- Porque?
- Mario, já são quase onze da noite… com
certeza, tanto a Izabel quanto o Geremias já devem estar indo para a cama,
nessa hora…
- É, acho que você está certa…
- Claro que estou… você gostaria que alguém
resolvesse vir nos fazer uma visita nessa hora da noite?
- Não, claro que não..
- Não faça aos outros aquilo que não deseja
para ti…
- Tudo bem… mas amanhã, durante o dia, a gente
vai lá…
- Levamos a Estela junto?
- Do jeito que ela anda ultimamente, duvido que
queira nos acompanhar. Seria bom se ela viesse, mas acho que não vai querer…
- É… essa menina anda muito arredia,
ultimamente…
E assim, os dois foram dormir, pois no dia
seguinte teriam muitas coisas para resolver, e visitar a família de seu genro
era uma delas…
No dia
seguinte, após o expediente de trabalho, Mario foi buscar sua esposa para
fazerem a visita que haviam programado. Só tinham ido na casa do rapaz uma vez,
e fazia já muito tempo. Portanto, a visita era mais do que devida. Se bem que
os pais do rapaz nunca tinham ido em sua casa. Não por falta de convite. Sempre
que podia, Maria falava para o rapaz levar seus pais e sua irmã juntos com ele para
visitá-los. Mas ele nunca os levou. Bem, eles fariam essa visita para
Izabel e Geremias. Só esperavam ser bem
recebidos…
Izabel os recebeu. Começaram a conversar sobre
vários assuntos, fazendo uma grande volta para chegarem ao que realmente os
havia levado àquela visita. Em um dado momento, Mario pergunta por Geremias,
pois até então ainda não o havia visto.
Izabel explica que o marido sofreu um acidente no trabalho e está
acamado, sem condições de se movimentar. Mario e Janete ficam visivelmente
constrangidos, pois não sabiam do ocorrido. Izabel os convida a ver seu esposo,
que está no quarto.
- Cara, que folga é essa? Vê se agora é hora de
dormir…
Geremias tenta um simulacro de riso, mas a dor
não o deixa fazê-lo.
- Rapaz, pensei que ia dessa para a melhor…
- O que aconteceu?
- Eu estava consertando um telhado… escorreguei
e caí…
- Não estava usando um cinto de segurança?
- E ia prender ele aonde? Cara, eu estava em
cima de um telhado!
- Foi grave?
- Um pouco… depois que me recuperar, vou
precisar de fisioterapia… por sorte, não afetou a coluna!
- É… foi sorte, mesmo. Mas está no seguro…
- Sim, graças ao Jairo, que me infernizou até
que eu começasse a pagar o INSS. Se não fosse isso, eu estaria bem pior… ainda
bem que ele assumiu as despesas da casa, por enquanto… a ajuda do governo mal
dá para comprar meus remédios…
Mario ficou pensativo. Falava que sua filha
estava grávida? Achou melhor ficar quieto no momento. A familia do rapaz já
tinha problemas suficientes.
- E sua filha, como está?
- Daqui a pouco, chega da escola. Ela quer
trabalhar para ajudar nas despesas, mas só tem quatorze anos…
- É, com essa idade, só como Pequeno Aprendiz…
e a ajuda de custo não é muito, não…
- Foi o que o Jairo falou… ele disse pra ela se
concentrar nos estudos e deixar tudo com ele por enquanto…aquele garoto é um
menino de ouro, seu Mario…
- Geremias… eu sei que o momento não é o
melhor… você está acamado… mas você será avô logo, logo…
- Como….?!
- Do jeito tradicional… seu filho e minha filha
resolveram adiantar o expediente…
Mario havia decidido não falar sobre a gravidez
de sua filha, porém as palavras foram saindo de sua boca, sem que tivesse
domínio sobre elas. Geremias ficou pálido com a revelação de Mario.
- Meu Deus… mas… como… e justo agora…
- Calma, rapaz… não é o fim do mundo. Eles não
foram os primeiros nem serão os ultimos a fazer isso. O que realmente importa é
que a criança nasça forte e saudável, não acha?
- Sim, mas… e agora?...
- Agora? Como assim?
- O que vamos fazer?
- Como assim, o que vamos fazer? A gente, nada.
A criança vai nascer. Isso é tudo o que importa…
- A Estela… ela..?
- Bom, ela sente falta do namorado. Vive
enfiada no quarto, chorando as pitangas. Por isso é que viemos aqui… saber
porque ele não tem mais visitado minha filha…
- É que, desde que me acidentei, o Jairo tem
cumprido uma carga de trabalho dobrada… mas eu não sabia… nem a Izabel… ele não
nos falou nada!
- Sem problema. A única coisa que pedimos é que
ele dê uma passadinha lá em casa, para visitar a Estela… somente isso.
Os dois ficaram em silêncio, cada qual com seus
pensamentos. Geremias ficou se perguntando porque seu filho não contou que a
namorada estava grávida. Caramba, que problema. E justo agora ele tinha que ter
se acidentado? Precisava se recuperar logo,
para que Jairo pudesse cuidar de sua vida mais tranquilo. Mas o médico
havia dito que ele ficaria, no mínimo uns quatro meses de cama… enquanto os
dois estavam no quarto, Izabel e Janete conversavam na cozinha. E Izabel também
não ficou nada feliz com a noticia… não com a gravidez da nora, em sí… mas com
o momento, que não era o mais propício para um acontecimento dessa dimensão…
Começou a se preocupar. Com o marido, com o filho, com a nora grávida, com a
criança que chegaria dali a alguns meses… e sua pressão foi subindo…

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