WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS Capítulo Dezessete
WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS
Capítulo Dezessete
O dia amanheceu chuvoso.E
as ruas estavam enlameadas. Isso fez Graça lembrar-se de sua época de mocinha
quando, junto com Maria Izabel, as duas saiam a correr pela lama, debaixo da
água que caia do céu. Sim, eram outros tempos... tempos de inocência,
quando elas ainda não imaginavam o quanto o mundo era cruel. Verdade que
acabaram procurando por encrenca, quando a mãe de Graça caiu doente e o
dinheiro que era pouco começou a minguar. Sim, o que a empurrou para o mundo de
aventuras foi a necessidade de cuidar de sua mãe...
Seu primeiro pensamento, na
época, era se tornar uma boiadeira. Correr pelo campo na lida de gado lhe
parecia uma ideia bastante atraente... até que ouviu falar sobre a recompensa
pela captura do assassino de Rosinha. Qual terá sido seu fim, nas mãos do pai
da moça? Bem, ela não tinha o direito de pensar sobre isso, uma vez que aceitou
vender a vida do mesmo em troca de uma quantia polpuda em dinheiro... e era
isso o que precisava na época, para salvar sua mãe. Infelizmente não foi
possível... com o mal bastante avançado, tudo o que Graça conseguiu foi
protelar o fim de sua genitora. Mas felizmente conseguiu dar-lhe um conforto a
mais, enquanto esta aguardava sua passagem para o outro lado.
A princípio Graça pensou
mesmo que sua mãe se recuperaria. Afinal, depois de algum tempo de internação,
a senhora recebeu alta do hospital, e pôde ser levada para casa. Claro que a
anciã necessitava de cuidados, mas a esperança crescia no seio da garota, ao
ver sua mãe mais corada dia após dia. Foram momentos felizes... não dava para
negar. Graça até diminuiu seu ritmo de trabalho, para passar mais tempo junto a
sua genitora. E nos finais de semana sempre a levava para passear em algum
recanto da cidade. Seu ultimo passeio foi nas festividades de Sete de Setembro,
alguns meses antes de sua mãe partir. Tudo bem, não foi aquele evento esperado,
mesmo porque desde que a República se instalou no País essa data não era assim
tão comemorada... mas deu para se divertirem um pouco com a queima de fogos...
Alguns dias depois desse
evento o quadro de saúde de sua mãe voltou a ficar crítico e foi necessário
interná-la novamente. Só retornou para o lar de Graça dentro do caixão, para as
exéquias, para seu funeral. Sim, Graça ficou inconsolável... estava só, agora.
Em um primeiro momento pensou em retornar para sua cidade natal, onde tinha
amigos, onde estavam plantadas suas raízes. Mas, depois que passou o choque
pela perda, decidiu que deveria continuar tocando seu empreendimento, que
crescia dia a dia. E foi o que fez. Era uma excelente costureira, e além disso
tinha bom gosto para elaborar os modelos que confeccionava. Em pouco tempo
necessitou contratar auxiliares e logo estava atendendo a nata da sociedade...
afinal, os modelos que confeccionava eram lindos e... exclusivos. Graça nunca
vendeu dois modelos de vestido que fossem ao menos semelhantes. E isso era
importantíssimo para as senhoras que a procuravam, pois exclusividade era sinal
de status...
O tempo foi passando e lá
se foram três anos desde que sua mãe partiu desse plano. A dor da perda já não
era tão intensa. Muitas vezes ela tinha que se esforçar para recordar do rosto
ou da voz de sua genitora... pouco a pouco a imagem desta ia se desvanecendo de
sua memória... mas, de repente, começou a pensar em suas duas amigas de
diabruras lá na região da serra... e ficava pensando sobre o que elas estariam
fazendo...
Nessa noite ela teve um
sonho estranho... pouco depois de deitar-se para dormir sentiu-se caminhando
pelas ruas do centro, como se estivesse se dirigindo para o ponto do bonde que
a levaria para sua casa. De repente, sem mais nem menos, viu-se caminhando por
uma campina verdejante. Parecia primavera, pois as flores haviam
desabrochado. E ela continuou sua caminhada, admirando a paisagem ao seu
redor. A princípio não notou nada estranho na situação, mas de repente estava
vestida como nos tempos de aventuras... calça rancheira, botas de cano longo,
uma blusa xadrez, lenço amarrado no pescoço, um chapéu... e um cinturão repleto
de balas, com dois revólveres nos coldres. Na mão esquerda, um chicote, como
ela costumava andar quando se aventurava pelas matas à caça de fugitivos para
entregar à justiça...
Fazia já um bom tempo que
Graça caminhava através da relva que parecia não ter fim... era como um mar
imenso. O sol brilhava no céu, mas seu calor era bem ameno... não era aquele
calor escaldante, típico do verão... se bem que não estavam no verão... ou
estavam? Caramba... agora ela ficou confusa. De qualquer forma, continuou a
caminhar sempre em frente. Depois de algum tempo notou duas silhuetas, uma de
cada lado no horizonte... e todas caminhando para o mesmo ponto.
Não sentiu nenhum tipo de receio pelas figuras que se aproximavam, por isso
continuou a avançar com o mesmo passo de antes... depois de algum tempo,
pareceu reconhecer as figuras que se aproximavam... não quis acreditar, em um
primeiro momento... mas, sim... eras as suas amigas do interior... Maria Isabel
e Rosa... e ambas estavam vestidas da mesma maneira que ela... o que estaria
acontecendo?
Quando acordou, Graça ficou
pensativa. Afinal, fazia um bom tempo que não tinha notícias de suas amigas. E
agora... aquela sensação de que estavam juntas novamente era estranha... por
que teria tido esse sonho? Está certo, sentia saudades delas... mas... bem,
tinha que se levantar e se preparar para ir para sua loja. Os trovões reboavam
lá fora, e a chuva caia copiosamente. Com certeza teria problemas para chegar a
cidade, pois enquanto a chuva persistisse os bondes não teriam como percorrer o
trecho... bem, fazer o que, não é mesmo? Ainda bem que não tinha nenhuma
encomenda urgente para entregar.... pelo menos suas funcionárias ganhariam uma
folga não programada... mas bem que mereciam, pois davam o sangue durante o
expediente normal... Sim, Graça era exigente para com suas colaboradoras. Mas
estas não reclamavam, pois a patroa sabia recompensar a dedicação de suas
funcionárias...
Quando a chuva amainou um
pouco Graça ganhou a rua. O lamaçal quase a impedia de caminhar. Mas resolveu
que iria para o centro de qualquer forma, nem que fosse para chegar lá e voltar
para trás. Só não sabia como iria fazer, já que as viagens de bonde ainda
estavam suspensas... se desse para ir de barco... mas não era possível, então o
negócio era se conformar...

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