A TAÇA DE CRISTAL Capítulo Sessenta e Nove




A TAÇA DE CRISTAL

Capítulo Sessenta e Nove


Ninguém entendeu muito bem o que aconteceu quando as duas rolaram escada abaixo... Helena, que havia sido derrubada, levantou-se como um relâmpago e atirou-se escada abaixo, como se estivesse pulando de um trampolim para uma piscina. Estela, que até então estava distraída, conversando com o ex cunhado, virou-se e correu em direção à escada. Mario ficou olhando tudo isso acontecer, sem poder esboçar qualquer reação, pois em pouco mais de um segundo tudo havia terminado. Como eu disse, ninguém conseguiu entender o que estava se passando... Helena segurou Letícia pelo braço, impedindo-a de continuar caindo, e Estela simplesmente pegou sua mãe no colo, em pleno ar, interrompendo a queda que, se completa, poderia ser fatal. Estela depositou gentilmente sua mãe no sofá, que a olhava incrédula... como ela conseguiu pegá-la daquela maneira? Cecília e Helena estavam lado a lado, de pé, mais ou menos na metade da escada. Mario continuava com as duas mãos no rosto, pois ainda não processara o que acabou de presenciar. Quanto a Ricardo... bem, ele estava simplesmente de boca aberta, sem conseguir entender toda a ação que se desenrolara em sua frente.

Quando finalmente conseguiu esboçar alguma reação, Mario desceu lentamente a escada, chegando até onde as meninas estavam paradas.  Então, os três acabaram de descer os lances de degraus que faltavam, até que estavam em frente ao sofá, onde Estela e Janete se encontravam...

- Janete... como está se sentindo?

A mulher ainda estava meio apalermada com tudo o que acabara de ocorrer... ainda não havia processado os últimos acontecimentos. Então, de repente, levantou-se e encolheu-se, ao ver Cecília em sua frente....

- Você... você tentou me matar!

A moça olhou para sua mãe. Não havia surpresa estampada em seu rosto. Aparentemente o que a mãe falava não era novidade para ela... na verdade, Cecilia olhava para sua genitora com um misto de pena e decepção. Como ela pôde fazer aquilo? Trazer para sua casa alguém indesejado e ainda por cima, tentar obrigá-la a aceitar o fato como se fosse algo perfeitamente normal? Levando tudo isso em conta, acusa-la de tentar matar sua mãe era nada... o que Janete se esquecia convenientemente era que quem começou toda a situação foi ela, e não sua filha...

- A senhora está bem?

Janete encolheu-se toda com a aproximação de sua filha. Cecília limitou-se a olhá-la mais uma vez... virou-se, voltou a subir as escadas e, dali a alguns minutos, estava se retirando da residência.  Mario a seguiu até a porta...

- Para onde você vai, Cecí?

- Para a casa de Helena, pai. Para a minha casa...

- Está certo... me liga quando chegar lá?

- Não se preocupe... ligo, sim...

Helena também já estava na porta, ao lado do pai e da irmã...

- Se você acha que vai sozinha, está muito enganada...

- Lena, fica aí... dá uma força para o papai e a Estelita... eu me viro sozinha...

- Mas nem pensar... estou com fome e o jantar aqui miou... a gente vai comer alguma coisa... que tal uma pizza?... e depois vamos para casa. Tchau, pai... cuida dessa casa de doido o melhor que puder...

- Pai, o senhor sabe que, tão cedo, não volto aqui, não é mesmo?

- Sim, filha... eu entendo! E acho que é o melhor, mesmo...

Se despediram, e as duas moças ganharam a noite escura... Mario ficou vendo-as desaparecer nas brumas e ficou pensativo. Que confusão Janete conseguiu armar... e tudo porque havia enfiado na cabeça que tinha porque tinha que fazer sua filha aceitar o ex de volta em sua vida... mas porque ela tinha que ser assim, por que ela não conseguia aceitar uma decisão tomada por alguém? Por que ela achava que estava sempre certa e o mundo à sua volta, todo errado? Bem, dessa vez ela exagerara...  o pior é que ele sabia que não tinha como encostá-la na parede e fazê-la entender que estava errada em seus pontos de vista... se nem o padre conseguia isso, como é que ele poderia faze-lo?

Depois de algum tempo parado, olhando para a rua onde suas filhas haviam sumido, Mario retornou à sala. Ricardo permanecia sentado, ainda sem conseguir entender exatamente o que havia ocorrido naquele local. Estava como que em um transe, onde não conseguia despertar para a realidade à sua volta. Mario passou por ele, e nem mesmo dirigiu-lhe um olhar. Foi até onde sua esposa estava, pegou sua mão, sem dizer nada. Janete estava parada, com o olhar perdido no infinito, ainda não acreditando em tudo que ocorrera naquela noite. Finalmente olhou seu marido nos olhos...

- Mario, ela tentou me matar!

- Sinto muito, Jane, mas isso não é verdade. Vocês duas se enrolaram por sua culpa! A menina estava indo embora e você tentou impedi-la...

- Ela não podia ter feito isso comigo...

- Você é que não podia ter feito o que fez...desculpe, mas você está errada...

Saindo do torpor em que se encontrava, Ricardo, todo sem graça, sem saber como agir,  dirigiu-se ao patriarca da família...

- Seu Mario... eu... eu não sei o que dizer... eu...

- Rapaz, só posso te dizer uma coisa...você não é o único culpado da situação... na verdade, a maior culpada é a Jane... ela não tinha nada que fazer as coisas da forma que fez...
- Seu Mario, eu... eu...
- Olha, vou te pedir só uma vez... por favor, se retire... me desculpe, a culpa não é sua... mas depois do ocorrido, sua presença aqui nessa casa não é bem vinda...
Ricardo abaixa a cabeça e se dirige para a saída. E a raiva por Cecília voltou a crescer em sua mente. O rapaz ganha as ruas e se perde pela noite. Finalmente o que resta da família no recinto esta reunida... Janete, ainda sentada no sofá, Selene, alheia a tudo o que acontece ao seu redor, brinca com sua boneca de pano, Estela, que se senta ao lado da filha e Mario, que após trancar a porta, se dirige a sua esposa...
  - Agora, que só estamos nós aqui... poderia, por favor, me explicar que diabos você estava pensando quando armou toda essa confusão?
- Eu não armei confusão nenhuma! A culpa é toda da Cecília!
- Janete...
Mario respirou fundo! As palavras que vinham à sua boca não podiam ser ditas... ficou em silêncio por alguns minutos. Dava para se ouvir o som do bater de asas de uma mosca, tal a ausência de sons que tomou conta do recinto... finalmente, controlando suas emoções, Mario perguntou...
- O que você estava pensando quando convidou esse moço para vir aqui em casa, criatura de Deus? 

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