44 - MANÉ DA TIANA
44 - MANÉ DA TIANA
Desde o dia em que encontraram a estranha criatura atacando o gado que Juca redobrou seus cuidados com a segurança dos pastos. Agora haviam seis cavaleiros rondando toda a região dia e noite, sempre em dupla, para que um protegesse as costas do outro. E, a qualquer sinal de anormalidade... não importava o que fosse, a ordem era chamar os outros cavaleiros para ajudar... sim, Juca realmente ficou preocupado com os últimos acontecimentos da região. E isso porque ele não sabia que haviam encontrado o corpo de Manoel com uma das balas que ele havia disparado, e que depois este havia desaparecido. E que o haviam avistado em uma cena de carnificina... bom, ele conhecia Manoel a um bom tempo, e jamais suspeitaria que o amigo de copo seria, de alguma forma, um monstro. Mesmo porque o Mané da Tiana, como os amigos costumavam chamá-lo, era uma pessoa extremamente agradável de se conversar. Nada havia nele que denunciasse qualquer coisa de estranho em seu comportamento. Era educado, cortês... reservado, como todo caboclo. Talvez a única estranheza do amigo fosse seu sumiço de tempos em tempos... geralmente na semana da Lua Cheia... mas Juca nunca havia ligado uma coisa com a outra. Fazia já alguns dias que não encontrava Manoel em lugar algum... nem na roça, o que era absolutamente normal, já que ele trabalhava nos pastos, e quase não via os roceiros no dia a dia, mas também não o tinha visto na venda, depois do horário de trabalho... mas como de vez em quando o amigo sumia de vista, ele não estranhou...
Juca fazia sua ronda de inspeção como sempre, quando avistou alguma coisa estranha em um dos pontos do pasto.... parecia uma sombra tentando se esconder entre a vegetação... o rapaz olhou uma vez, duas... e a sensação de ter visto algo se mexer era forte, embora nada mais pudesse ser notado. Seu primeiro ímpeto foi seguir adiante, continuar sua ronda. Mas sua curiosidade foi maior... e se fosse algum predador escondido nas moitas, pronto para atacar as reses? Fazia tempo que isso não acontecia, mas sempre poderia haver alguma onça caçando pela região.... claro que era loucura ir sozinho ver que tipo de animal estaria se escondendo ali ... afinal, se o mesmo se sentisse acuado, com certeza o atacaria. Mas para evitar surpresa, ele não desmontaria. E quando estivesse próximo do local, faria alguns disparos para o alto. Isso com certeza espantaria qualquer animal que estivesse escondido ali... e foi o que fez. Mas nenhum animal saiu correndo por entre a mata. E isso deixou Juca ainda mais curioso, uma vez que percebeu um leve tremor entre a vegetação. Tinha alguma coisa ali... e ele tinha que ver o que era... burrice? Sim. Se Zacarias soubesse o que ele estava prestes a fazer, com certeza o repreenderia. Mas, se não o fizesse, ficaria o dia todo preocupado com algo que poderia não ser nada...
Quando estava a uns cinquenta metros da touceira onde percebeu o movimento, apeou com todo cuidado. Procurou um lugar para prender seu cavalo... não gostaria de ficar a pé, dependendo do que encontrasse escondido no meio do mato...e aí uma dúvida o assaltou... e se fosse uma sucuri? Menos mal se fosse uma jiboia... bem, fosse o que fosse, não sairia dali sem ter certeza de que nada perigoso estava assolando o lugar... de repente, aquele cheiro de carniça chegou às suas narinas. Era tão forte que deu vontade de vomitar. Juca parou, virou o rosto de lado... cobriu o nariz com o lenço... melhorou um pouco, mas o cheiro ainda estava forte. Seu cavalo estava agitado. Juca entendeu que, se não tivesse prendido o animal fortemente na árvore, teria ficado a pé... pois seu cavalo começou a demonstrar claramente que o único lugar da terra em que ele não queria estar era ali... O rapaz sacou seu rifle, examinou o mesmo, para confirmar que estava carregado, verificou seus revolveres... tudo ok, dava para começar uma pequena revolução... e lá foi ele, pé ante pé, em direção ao local suspeito... todos os seus sentidos em alerta, pronto para tomar uma atitude... e o cheiro, cada vez mais forte... usando o cano do rifle para afastar a vegetação de sua frente, Juca ia avançando pela mata... até que...
O rapaz estava preparado para tudo, mas com certeza, não para aquela visão... na sua frente, tentando proteger-se dos raios de sol, estava uma criatura que parecia ter surgido do mais horrível de seus pesadelos... um misto de lobo e morcego, mas com uma aparência humana... e Juca imediatamente reconheceu quem era, apesar do aspecto monstruoso...
- Mané da Tiana?!.....
O estranho ser o olhou... a dor que estava sentindo estava estampada em seu rosto, e a criatura se encolhia toda, tentado proteger-se da luz do dia... dava para ver que estava ferida, várias queimaduras se espalhavam por sua face e braços.... Juca o olhou novamente, e entendeu que a criatura precisava proteger-se do sol... foi até seu cavalo, pegou uma manta que tinha na sela, e com ela cobriu aquele que foi seu amigo. Este olhou para ele agradecido. Aparentemente, o tecido grosso havia ajudado a controlar os raios de sol que atingiam a pele da criatura. Sentado em frente a Juca, o estranho ser resolveu começar a falar...
- Juca... eu... eu... não queria... fazer... nada... nada disso...
- Fazer o que, Mané?
- Olha... eu... eu matei algumas... reses... eu precisava ... do sangue... delas... prá sobreviver....
- Então era você...
- Sim... eu... eu... preci... preciso de... sangue... entende?
- Não. Não entendo....
- Olha... olha prá... mim... eu... eu não sou... como vo... você...
- Continuo não entendendo...
- A.. a um tempo... atrás... eu... eu encon... encontrei a... a mu... mulher de ... branco....
- Sei....
- Ela... ela me ata... atacou, Juca.... e aí eu... eu virei... isso que... que você... está vendo...
- Você encontrou a mulher de branco?
- Sim... ela... ela era... muito... bonita... e aí... ficou igual... igual eu... estou agora.... e me... atacou!
- Olha, eu...
- Ela é... ela é um... vampiro, Ju... Juca... e eu... eu também... sou um, ago... agora....
- E agora?
- Eu... eu não sei... ontem... eu... matei um ... homem... minha se... sede esta... estava terrí... terrível! Só... só passou... depois que o... matei!
- E o que eu faço agora?
- Não... não sei... agora... de dia... não posso me...mexer... estou... paralisado... e o sol... me inco... incomoda! Es... estou com... com me... medo da noite...
- Porque?
- Por... porque... eu... eu sei... que vou... matar... de... novo! E eu... eu não... quero... isso! En... entende?
- Sim... mas o que eu posso fazer?
- Não... não sei... só... sei... que... quando a... noite chegar... eu vou voltar... a matar....
Juca aponta o rifle para aquilo que um dia foi o seu amigo, e puxa o gatilho. A criatura nem pestaneja.
- Agra... agradeço o que... o que você ten... tentou fazer.... mas... isso não... não me fere...
Juca abaixa o rifle e olha compadecido para Manoel. Este retribui o olhar, mas com um olhar triste, de quem já perdeu a esperança no mundo, na vida....
- Mané, vou tentar conseguir ajuda para você...
- A... única for... forma de... de me... ajudar é... me matando!
Sem falar mais nada, o rapaz deu as costa para a criatura, montou seu cavalo e saiu em disparada, em direção à vila. Talvez o padre soubesse como resolver o problema. Pois o delegado, com certeza, não teria como dar um jeito na situação...

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