40 - ALICE

 


 

40 - ALICE

 

Devido aos últimos acontecimentos... a reunião com Duarte, entre outros... Alice resolveu caminhar pelas ruas do vilarejo para pensar um pouco. Ela morava um pouco afastada do centro, entre a vila e a zona rural. Fazia já um par de anos que ela se mudara para aquela cidadezinha... Achou que seria bom para seu espírito ficar longe de cidades grandes. Primeiro, porque poderia trabalhar naquilo que mais gostava, que era pesquisar histórias e lendas do sertão. Pretendia escrever um livro sobre o assunto, e que maneira mais eficaz de se inteirar sobre este do que mergulhar de cabeça na sua fonte de inspiração? Alice recolhia todas as histórias que ouvia, e as anotava em um caderno só utilizado para esse fim. Era o único que nunca abandonava seus princípios, estava sempre disponível para aceitar seus registros sobre novas descobertas. Sim, a conversa a deixou um tanto abalada. Sempre considerou que as histórias que recolhia junto à população nativa fosse apenas isso... histórias de assombração, para assustar as crianças nas noites de lua cheia. E agora aparecia Alberto com aquela história... justo ele, uma pessoa esclarecida, culta, de boa educação, totalmente realista, sem nenhum viés sonhador... Alice esperaria a crendice  em qualquer outra pessoa, não nele. Como poderia acreditar que.... mas ele disse que tinha provas do que falava, e assim que ela quisesse, poderia mostrar-lhe todas as evidências colhidas...Alice estava tão absorta em seus pensamento, que não viu um cavaleiro que vinha em sua direção....por pouco o cavalo não a pisoteia. Com o susto, ela perdeu o equilíbrio e foi ao chão. O cavaleiro desmontou rapidamente e a socorreu...

- Está tudo bem, senhorita?

- Sim, não se preocupe... só perdi o equilíbrio....

- Posso te ajudar, de alguma forma?

- Fique tranquilo, não me aconteceu nada...

- Desculpe... é que a senhorita entrou de uma vez na frente de meu cavalo...

- Não se preocupe... nada aconteceu...

- Tudo bem... posso te pagar um café?

- Pensando bem... porque não?

E o cavaleiro acompanhou Alice pela alameda, conduzindo seu cavalo pelas rédeas. Amarrou o animal na porta da pensão, onde adentraram... sentaram-se próximos à janela e, como o salão estava vazio, logo Dona Adélia, a proprietária, veio atende-los.

- Tem um bolo de nata que acabou de siar do forno...

- A senhora pode nos servir... com aquele delicioso chocolate que só a senhora sabe fazer, por favor...

- E o cavalheiro?

- O mesmo que a moça, por favor...

E a mulher saiu em direção à cozinha, para buscar os pedidos...

- O senhor é o Delegado Federal, não é mesmo?

- Sim, sou eu mesmo...

- Eu estava conversando com o Doutor Duarte agora a pouco...

- E...?

- O senhor imagina que ele está tão desesperado, que começou a procurar explicação em fantasmas, nos casos em  que não consegue resolver?

-E o que a senhorita acha sobre isso?

- Loucura, não? como pode atribuir as mazelas do povo a.... manifestações sobrenaturais?

- A senhorita não acredita nessas coisas?

- Eu sou uma estudiosa. Procuro conhecer as raízes dos mitos do povo. Sabia que a aparência de alguns dos monstros mitológicos que tanto assombram as pessoas na verdade são associadas a algum tipo de doença?

- Mesmo?

- Sim... por exemplo... uma pessoa que sofra de lepra pode muito bem ser confundida pelos matutos como um... Papafigo. Acredita nisso?

- Sim, claro que sim... mas a senhorita está ciente que muita coisa inexplicável, do ponto de vista racional, acontece por essas bandas...

- Oh, casos sem explicação acabam sendo explicados quando a gente descobre o ponto que não havia percebido, ainda...

- Verdade?

- Sim, com toda a certeza...

- Moça, eu nasci no sertão.  Fui criado no meio do mato, até o dia que deixei meu povoado para ganhar o mundo...

- E foi bem sucedido, pelo visto...

Dona Adélia chegava até a mesa dos dois com uma bandeja com um bolo e uma jarra, além de dois copos...

- Espero que gostem... bom apetite!

- Obrigada! A senhora sabe que eu amo seus bolos...

Juvêncio se limitou a sorrir. Serviu a moça, serviu-se em seguida. Ficaram algum tempo em silêncio, apreciando o bolo e o chocolate. Em dado momento, Alice resolveu continuar a conversa...

- Juro que pensei que o senhor fosse pedir uma cachaça...

- Tem hora para tudo... um café... um chá... uma cachaça... agora era a hora do chocolate...

- Alberto não gosta muito de doces... nem de bebidas doces...

- Alberto é o seu namorado?

- Sim...

- Bom, ele não sabe o que está perdendo...

- Quer dizer que o senhor nasceu por estas bandas...

- Sim... e o destino acabou por levar-me à cidade grande...

- Engraçado... comigo aconteceu exatamente o contrário...

- É o destino...a gente simplesmente o segue... a senhora estava falando de monstros e pessoas doentes...

- Sim...

- Mas nem todos os casos dá para a gente classificar assim...

- Sério?

- Sim...  ontem, por exemplo, eu fiquei o dia todo examinando o rio...

- Achou alguma coisa interessante, lá?

- A senhora acredita em boi-tatá?

- A serpente de fogo?

- Bom, a que eu ví não era bem uma serpente...

- O senhor viu um?

- Sim, eu vi...

- O senhor disse que ficou o dia todo na beira do rio...

- Sim...

- E que à noite avistou a tal criatura...

- Correto...

- Com todo respeito, seu moço... acho que o senhor dormiu e viu aquilo que desejava ver....

- Você não acredita mesmo, não é?

- Até que eu veja uma criatura dessas com meus próprios olhos, não...

- Cuidado com o que deseja...

E aí Juvêncio resolveu considerar aquela conversa encerrada. Começou a puxar outros assuntos. Perguntou sobre o povo, o que ela sabia sobre a história do lugar.... quais eram as origens das famílias. e a tudo Alice respondia com prazer. Ela amava quando alguém lhe pedia para compartilhar seus conhecimentos. E era exatamente isso que aquele senhor simpático, sentado à sua frente estava fazendo. Pena que ele parecia um pouco crédulo demais... mas nada que afetasse a simpatia que Alice começou a sentir por ele.


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