43 - MAIS UM DIA...

 




43 - MAIS UM DIA...



- Apeia, seu Vicente...

- Agradecido, seu Zacarias... precisava de uns dois dedos de prosa com o senhor...

- Então vem... Rosário acabou de assar uma broa de milho que estala no céu da boca... e a chaleira tá cheia de café fresquinho...

- Obrigado, seu Zacarias... não precisa se preocupar...

- Ora, seu moço, deixa de fazer fita, e vamos logo... senão a broa e o café vão esfriar...

Juvêncio não esperou um segundo convite. Desmontou de Tornado, deixou o animal solto em frente à casa e acompanhou seu anfitrião. Rosário estava cuidando da cozinha... já a alguns dias não ia para a roça, pois estava cuidando de Constância, a mãe de Graça. O estado de saúde da mulher estava piorando, e já não sabiam o que fazer com ela, uma vez que o doutor havia sido enfático nesse ponto... ela teria que ir para um Hospital na Capital, pois ali eles não teriam meios para cuidar dela... o problema é que não faziam a menor ideia de onde Graça poderia estar, e acabavam ficando de mãos amarradas, pois não sabiam o que fazer....

Os dois homens sentaram-se à mesa, e se serviram da chaleira, despejando o café nas canecas feitas de latas de conserva, muito comuns por aquelas bandas. Como o café estava quente, era um tanto e quanto incômodo levar a caneca à boca, pois o metal estava tão quente quanto o liquido que ele comportava.... Rosário, vendo os dois homens apanhando com as canecas, foi até o armário e pegou duas xícaras de bom tamanho, feitas de argila... mais propícias para o café do que as canecas...

- Quer queimar a boca do moço, Zacarias?

- Foi o que encontrei na mesa....

-Essas canecas são prá beber água, homem de Deus... bebida quente, ou na caneca de ágata ou nessas xícaras...

- E eu lá achei caneca de ágata ou xícara?!... Cada coisa...

Juvêncio, embora aparentasse estar sério por fora, estava a rir a bandeiras despregadas por dentro. Não havia dúvidas, pensou... a casa realmente era território das mulheres... por mais que tentassem, os homens não conseguiam localizar nada dentro do território delas, se estas não os ajudassem...

Resolvido o impasse das canecas... estava bem mais fácil tomar o café agora, e as broas, com manteiga e um queijo fresquinho que Rosário lhes serviu, realmente podiam ser chamadas de um manjar dos deuses...  enquanto comiam, ficavam em silêncio, compenetrados, pensativos... procurando o melhor jeito de abordarem os assuntos que lhes interessava... sim, pois tanto Juvêncio quanto Zacarias tinham muitas perguntas sem respostas e com certeza esperavam que  a conversa que teriam ajudaria a esclarecer alguns pontos. Ouviu-se um gemido, Rosário foi para o quarto. Depois de alguns instantes, voltou, com ar desanimado estampado no rosto...

- O que aconteceu, Rosário?

- A Constância... está ardendo em febre....

- Deu o remédio prá ela?

- Dei... mas não resolveu....

- Desculpa, seu Zacarias... mas o que está acontecendo?

- Estamos cuidando de uma amiga... ela precisa de cuidados em um hospital... mas a gente não tem dinheiro nem prá mandar ela prá lá, nem prá pagar as despesas... a filha resolveu caçar um criminoso para embolsar a recompensa por ele, para poder mandar a mãe para a Capital... mas acho que não vai conseguir o dinheiro a tempo...

Juvêncio ficou pensativo.... então, olhando para Zacarias, falou...

- Quando o senhor pode mandar ela pro hospital?

- Quando a gente conseguir o dinheiro...

- Não se preocupe com isso... dá prá fazer isso agora?

- Claro... mas...

- Não se preocupe, eu já disse... tome as providências necessárias.... 

- Bom, então tenho que chamar o doutor Alberto...

- O legista?!

- O faz tudo... ele cuida das pessoas desde que nascem até quando morrem, por essas bandas....

- Entendi... bom, vamos fazer assim... eu vou buscar o doutor lá na vila, enquanto isso o senhor vai ajeitando tudo prá que a senhora possa ir pro hospital...

- Agradecido, seu Vicente... na verdade, a gente já não sabia o que fazer com a Constância...

Juvêncio montou seu alazão e partiu para a vila, buscar o médico como havia prometido. Não conseguiu nem começar a conversa que precisava ter com Zacarias... mas cada coisa tem seu tempo, não é mesmo? A sua filosofia era "nada na vida acontece por acaso" e isso se provou verdade nesse momento... afinal ele tinha ido à casa de Zacarias para falarem dos eventos que estavam ocorrendo nas redondezas, e acabou socorrendo uma pessoa doente... se isso não era a mão do destino, então o que seria? Juvêncio apeou na praça, perto do coreto e deixou Tornado ali... o consultório de Alberto não deveria ser longe do local, então ele parou um pouco, tentando se localizar..

- Perdido nos pensamentos, seu Vicente?

Juvêncio voltou-se rapidamente em direção à voz... era Alice...

- O senhor estava em outro mundo, eu acho... eu o chamei umas cinco vezes, até que me ouvisse...

- Perdão, senhorita... é que estou procurando o consultório do doutor Alberto...

- Bem, fica ali, perto da barbearia... mas o senhor não vai encontrá-lo lá agora...

- Não? E onde estaria?

- Na delegacia... o Duarte o chamou agora de manhã, e disse que era urgente... 

- Obrigado moça... vou prá lá, então...

E lá se foi Juvêncio a passos largos em direção à delegacia... e Alice ficou olhado ele se afastar... e não segurou um suspiro, acompanhado de um leve sorriso... sim, tinha alguma coisa nesse homem que a atraía...

- Duarte, isso é impossível...

- Impossível ou não, doutor, está lá...

- Desculpem a intromissão, mas o que é impossível?

Os dois homens se voltaram e viram Juvêncio parado na porta da sala. O primeiro a falar foi Duarte...

- Lembra do morto que sumiu?

- O que tem ele?

- Está atacando as pessoas... ontem matou um homem lá perto do rio...

- E como sabe que era ele?

- Estavam em dois... um conseguiu fugir...

- E o corpo?

- Dilacerado... e totalmente sem sangue...

- Não entendi... 

- Bom, pelo que entendi, era o Manoel. E não era, ao mesmo tempo. O rapaz que me reportou o fato disse que ele parecia um grande morcego.... e que, ao encontrar os dois, pulou sobre seu amigo.. é claro que ele deu no pé, pois não queria acabar como o companheiro...

- Entendi, Duarte... bem, ao que parece, os serviços do doutor Alberto não são tão necessários assim aqui... afinal, um já está morto, e o atacante, pelo que me contaram, precisa ser despachado... mas também já está morto...

- Mais ou menos isso...

- Doutor, acho que é mais urgente cuidar dos vivos.... o senhor poderia ir ver a dona Constância, na casa do seu Zacarias? Estão preparando tudo para mandar a mulher para a Capital...

- Conseguiram o dinheiro?

- Não... eu vou pagar.

- O senhor sabe que vai ficar caro, não?

- Dinheiro não é problema, nunca foi... o senhor pode ir até lá, por favor? Vou conversar com o delegado um pouco e já vou prá lá, também...

Sem responder, Alberto pegou sua maleta e saiu rapidamente. Juvêncio tinha razão, os mortos poderiam esperar. Os vivos, não...

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