WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS Capítulo Sessenta e Oito
WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS
Capítulo Sessenta e Oito
A hora fatídica se aproximava... um vento forte e enregelante começou a soprar, vindo do leste... sim, o perigo vinha do Nascente... o que, de certa forma, era um tanto quanto estranho... afinal, se resistissem até o alvorecer, a criatura que temiam se desfaria em pó... retornaria aos confins do Infinito de onde viera...
Embora o centro do acampamento permanecesse calmo e tranquilo, as bordas do círculo formado pelos três casais era fustigado pela fúria da Natureza... o vento soprava com tal força que parecia que as árvores ao redor seriam arrancadas do solo e atiradas contra as pessoas a qualquer momento. Raios e coriscos cortavam o firmamento. De quando em quando se percebia a silhueta de um ancião a rondar o local em que as pessoas se encontravam... ora ele crescia, ora encolhia... sim... era o deus que não queria voltar ao seu local de origem lutando para continuar nesse plano...
Os seis estavam em posição de lótus... e quem os olhasse de longe, pensaria que eram estátuas, tão compenetrados estavam. As moças seguravam em suas mãos seus pingentes com força tal que seria impossível alguém tira-las das mesmas. Os homens estavam com suas mãos a postos, e os olhos fechados, como se fizessem uma oração. E na verdade, era isso o que faziam naquele momento... um pouco antes de se posicionarem onde agora se encontravam, Maria Izabel ensinou a eles um mantra e pediu que o repetissem sem descanso, pois provavelmente seria a única coisa que protegeria o acampamento naquela noite...
Quando Izabel retornou para com suas parceiras, foi duramente criticada por estas, pois uma vez mais estava indo contra aquilo que lhes fora determinado. Mas depois de algum tempo, aceitaram suas razões, concordando em auxiliar as pessoas que ali se encontravam. E então se posicionaram, formando um hexagrama imaginário, mas que tinha força para impedir o acesso a qualquer poder sobrenatural que tentasse invadi-lo nessa noite...
E o tempo mudou radicalmente, fora do perímetro traçado pelas moças...foi quando Jacinto compreendeu que deveria ter ouvido o delegado misterioso... mas agora era tarde, nada mais se podia fazer. Bem, sempre se poderia fazer uma oração... e torcer para que sua fé fosse suficiente para manter longe do acampamento aquela força que eles não compreendiam, mas que estava a ataca-los...
Quando a Natureza começou a obedecer os comandos de Anhangá todos os vaqueiros se dirigiram ao centro do acampamento, próximos aos líderes. Sem demora, Jacinto passou a colocar seus homens em círculo, como se pudesse formar uma barreira mística assim... claro que ele nada entendia de magia, então tudo que fez foi por instinto... mas que no final parecia dar certo... na verdade, se tivessem ligado as pontas do hexagrama com certeza a proteção seria maior... mas ele não teve nenhuma orientação sobre como proceder, então foi por instinto, mesmo...
Os raios estouravam a poucos passos dos seis pilares, que eram Juvêncio e sua turma. De vez em quando Anhangá se fazia visível, na tentativa de assustar Juvêncio e os outros. Assumia as formas mais medonhas que se pode imaginar, porém nada demovia aquela almas fortes de seu local de proteção... e tudo o que Anhangá precisava era de alguém que tivesse o mínimo de dúvida sobre o que estava sendo feito...
As horas passavam lentamente... cada segundo tinha a duração de um século para aquelas pessoas... o cansaço de todos era visível, e a entidade começou a rir... sua vitória parecia próxima. Jacinto aproximou-se do local em que se encontrava Juvêncio, mas ao vê-lo compenetrado percebeu que não poderia distraí-lo por qual motivo fosse... afinal, era a sobrevivência de todos que estava em jogo naquele momento. Ia retirar-se, quando percebeu um pequeno gesto do homem à sua frente e tratou de aproximar-se um pouco mais. Então, sibilando entre dentes, Juvêncio passou-lhe algumas instruções. O boiadeiro retornou rapidamente junto aos seus comandados, dividiu-os em grupos de sete, colocando os melhores atiradores na frente. Pegou toda a munição de prata e distribuiu-a para estes... a jogada seria arriscada, mas era a única opção do grupo. Teriam que ir para o tudo ou nada, pois os seis pilares não conseguiriam resistir por muito mais tempo... e ainda faltava um bom par de horas para o raiar do sol...
Cada grupo ficou com dois atiradores municiados com prata à frente. Os cinco restantes empunharam suas espingardas cartucheiras municiadas com sal... ninguém entendeu muito bem o que o boiadeiro queria fazer, mas como ele era o chefe, quem iria discutir? Ele mandou carregarem os cartuchos vazios com sal e apenas sal... os homens o olharam meio torto, mas quem estava pagando determinava as regras... e aí, acabaram com o estoque de sal da carroça que servia de cozinha... a bem da verdade, Jacinto também não acreditava muito no que mandou os homens fazerem... mas não ter seguido as instruções de Juvêncio na primeira vez os colocara nessa situação... portanto, o jeito agora era obedecer sem questionar... afinal, o delegado parecia saber o que estava fazendo...
Em certo momento Santana titubeou... o cansaço finalmente o vencera. Na mesma hora um redemoinho formou-se em sua posição. Foi quando Jacinto deu ordem para os homens armados com a carga de sal dispararem contra a coluna de vento.No mesmo instante em que foi atingida, a coluna se desfez. E a figura do deus da noite formou-se fora do círculo mágico...sua expressão de raiva por não conseguir invadir o local apavorou todos que o viram... e isso os fez mais alertas, pois não queriam que a entidade conseguisse invadir seu refúgio a céu aberto...
Vendo que dificilmente quebraria a barreira que lhe daria o repasto tão desejado, Anhangá resolveu personificar-se um homem... um guerreiro. Cessou todas as atividades eólicas e o mundo como num passe de mágica tornou-se tranquilo, calmo. Juvêncio e sua turma continuavam como estavam desde o início. Anhangá dirigiu-se até onde nosso amigo se encontrava e então, em alto e bom som, o desafiou para uma luta mano a mano, onde o perdedor se submeteria àquele que vencesse a contenda. Prometeu que, durante a peleja, nada aconteceria ao acampamento. E, se fosse ele o derrotado, se comprometia a retornar ao lugar ao qual pertencia, ou seja, o Hades...
Juvêncio olhou de soslaio para Izabel, que fez um pequeno aceno afirmativo com a cabeça. Ele compreendeu. Uma vez empenhada a palavra, Saturno não poderia voltar atrás. Mas... será que Juvêncio conseguiria vencer tão poderoso oponente? De qualquer forma, não havia muita escolha. Ou enfrentava o desafio ou estaria condenando todo acampamento à morte...
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WALKÜREN - AS TRÊS MARIAS
Capítulo Sessenta e Nove
O relógio marcava nove horas... Juvêncio olhou para os lados, sem compreender como fora parar ali. A última coisa que se recordava era estar em um ringue, lutando contra um gigante. Não sabia o que havia ocorrido durante a peleja... não conseguia se lembrar de nada... haviam mais pessoas ao seu lado, mas não sabia quem eram...
Sua cabeça estava latejando. Parecia ter levado uma surra... e devido à lembrança da luta, com certeza havia levado, mesmo...
Finalmente resolveu levantar-se e se dirigir para o salão restaurante. Estava com muita fome. Vestiu-se, lavou o rosto com a água da bacia que estava na mesinha ao lado de sua cama, afivelou o cinturão e lá se foi, matar quem o estava matando...
A primeira coisa que estranhou foi o fato de já ser noite alta. A sensação que tinha é que não havia dormido mais que uma, duas horas... mas o Tempo lhe dizia que havia repousado, ao menos, um dia inteiro...
Após saciar sua fome... comeu mais do que esperava, parecia que não tinha uma refeição decente a mais de um mês... resolveu caminhar um pouco sob as estrelas, tentando se reconectar com o mundo à sua volta. Pensou em galopar um pouco com Corisco... foi então que se lembrou que sua montaria agora era o Tornado, pois a muito Corisco estava galopando pelas pradarias celestes...
Ganhou a rua e seguiu instintivamente em direção a delegacia. Quando se deu conta, estava em frente à mesa de Santana...
- Bel...
- Que foi, Graça?
- Você acha que Saturno...
- Voltou para os Elísios...
- Mas o lugar dele não era o Olimpo?
- Na verdade, não. Se fosse para seu lugar de origem, seria enviado para Hades...
- Ele foi esperto em negociar, não?
- Com certeza, Rosa... ao preferir fazer um acordo conosco, acabou escapando da Escuridão...
- Boa noite, "seu" Juvêncio...
- Boa noite, doutor... o senhor sabe o que aconteceu?!
- Não faço ideia. A ultima coisa que me lembro é que a gente tava cercado. Só não sei por quem...
- E quando foi isso?
- Já faz uma semana...
- Tá dizendo que dormi uma semana inteira?!!
- Se fosse só o senhor... eu acordei ontem, com muito custo... o Torquato continua dormindo, aqui na delegacia...
- Mas... não consigo entender... a dona Clotilde...
- Pelo que disseram, foi visitá-lo todos os dias, quando o senhor estava dormindo...
- E como viemos parar aqui na cidade?
- Não faço a menor ideia... e as pessoas que cuidaram de nós enquanto dormíamos, também não...
Um barulho de passos faz os dois homens se calarem, por instantes. Relaxam ao ouvir a voz já conhecida das três Marias...
Izabel segue direto até a cela em que Torquato continua a dormir. Os delegados ficam apenas olhando, tentando entender o que a moça pretende fazer...
- Oh, de casa!
Era o doutor Carneiro, de regresso da Capital. E com seu tão sonhado veículo. Era um Peugeout type 3. Quando seus amigos viram o veículo, logo começaram a galhofa....
- Cadê o cavalo, meu amigo?
O doutor estava de bom humor, e não ligou para a brincadeira. Mas fez uma observação...
- Olha, com o cavalo seria mais... seguro! Mas acabei me acostumando com essa geringonça...
- Estou enganado, ou não gostou muito de seu brinquedo?
- Sinceramente? Não é muito confortável...
- Pelo menos consegue viajar sem paradas, não?
- Olha, embora não seja muito fã, acho que viajar a cavalo é melhor... ao menos por enquanto...
- Mas por que?
- O problema é o combustível... se não se cuidar, você fica na mão em lugares inóspitos...
- Te aconteceu isso?
- Não... o vendedor foi gentil e me alertou sobre isso... mas trazer uma reserva de querosene não é fácil... gasolina você não acha...
- Mas o caro é a querosene ou gasolina?
- Gasolina. Na falta, serve querosene, cachaça...
- Essa é boa... carro movido a cachaça...
- Não é ideal, mas dá para quebrar o galho. O problema é que é muito lento... levei uma eternidade para subir a Serra do Mar...
Continuaram a conversar sobre vários assuntos. De vez em quando olhavam em direção às celas, e viam as três moças em volta do catre onde Torquato descansava. Izabel era, sem dúvida, a líder do grupo. Começou o que parecia ser um encantamento, postando as mãos sobre o mestiço. Pronunciava palavras inteligíveis, no que era acompanhada em sua cantilena pelas outras garotas. Finalmente o rapaz começou a se mexer, fazendo menção de se levantar. As três se afastaram, dando espaço. Torquato sentou-se na beira da cama, olhou para os lados, como se não entendesse muito bem o que fazia ali... Juvêncio olhou de soslaio... sabia bem como o rapaz se sentia... havia passado pela mesma sensação quando acordara.
- Como se sente, Torquato?
- Com dor de cabeça... mas como vim parar aqui?
Todos olharam para as moças...
- Acho que apenas elas podem nos explicar isso... do que se lembra?
- De quase nada... se não me engano, a gente estava no campo, protegendo uma boiada...
- Bem, pelo menos se lembra mais que os outros...
- Porque, doutor?
- Nenhum deles tem ideia do que estava fazendo, antes de acordarem. Você ainda lembra de estar no campo... se lembra de ter entrado em ação...
- Ainda assim, doutor... é tudo muito nebuloso...
- Bem, pelo que entendi, foi uma experiência transcendental... nós enfrentamos um deus em pé de igualdade...
- Deus?! Como assim? Torquato, meu filho... lembra o que seu pajé havia dito sobre nosso inimigo?
- Na verdade, não...
- Bem, a gente pensou que estava lutando contra um espírito da terra...
- Um fantasma?
- Quase isso... mas era uma entidade mais velha que a própria humanidade...
- Como assim? Não entendi...
- Não sei explicar muito bem... talvez as moças possam nos dizer o que exatamente enfrentamos...
- As moças?...
- Sim... elas são bem mais do que aparentam...

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