RECORDANDO O PASSADO..;
RECORDANDO O PASSADO...
Vai, vai, vai boi
Cabeça baixa, passo lento no estradão
Vai, vai, vai boi
Estrada afora, vai puxando o carretão
(Velho candieiro - José Rico e Duduca)
A juventude de hoje não faz ideia, mas a cidade onde vivemos já foi aquilo que comumente chamamos de "interior"... mata fechada, vários animais compondo a fauna, rios e córregos abastecendo a população com sua água límpida, ainda livre da poluição...
Há não muito tempo o verde tomava conta da maior parte da face da Terra...havia variações de temperatura, é claro... inverno rigoroso, verão inclemente... a época das secas era terrível em alguns anos, em outros, nem tanto. O frio... bem, esse sempre vinha com todo rigor. Tanto que, para se aquecer, as famílias construíam fogões a lenha dentro de casa, para que as brasas da madeira queimada esquentassem o ambiente...
Havia anos em que a temperatura permanecia baixa além da época esperada. E as pessoas se aqueciam como conseguiam. As roupas quentes eram poucas, e os cobertores, escassos. Portanto, a versatilidade das donas de casa para contornar a situação era essencial...
A aguardente era usada pelos peões como um aquecedor pessoal. Uma vez embriagados, a sensação de frio não os incomodava tanto. Podiam partir para seus afazeres, como a lida do gado ou o cuidado com a plantação. Aliás, a aguardente era vista como um remédio... em quase todas as situações tomava-se um gole da mesma para prevenir alguma coisa...
Isso posto, dá para entender por que tantas pessoas acabavam viciadas na "branquinha", não é mesmo? Afinal, ela era tomada com fins medicinais, entre outros...
As ruas, de terra batida, levavam ao centro dos povoados, onde se vivia como "na cidade", ou seja, o Centro... é onde ficavam as vendas (pequenos comércios onde se encontrava de tudo, como nos atuais supermercados... a diferença é que o atendente é que separava as mercadorias para o freguês... e logicamente, o estabelecimento era pequeno, não tinha as dimensões gigantescas dos dias de hoje...), as farmácias (onde o farmacêutico atuava como médico em casos de emergência), quitandas e açougue...era tudo o que se encontrava no centro de cada bairro. Havia também o barbeiro e, aqui e ali, um depósito de materiais para construção. A maioria das vilas nascia em torno de uma igreja, que era a padroeira daquele bairro em questão...
Lojas de roupas existiam, mas só nas regiões centrais de cada área. Era mais comum mandar fazer a roupa em um alfaiate ( no caso dos homens) ou em uma costureira (no caso das mulheres)...
Era comum a passagem do gado pelas estradas, a caminho do pasto, da invernada ou do matadouro. O carro de boi era usado para transportar quase tudo. Carros, quase não haviam. Os ônibus ainda estavam chegando... o transporte mais comum, depois do cavalo e do carro de boi, era a bicicleta. Era com ela que os homens saiam toda manhã em direção ao seu trabalho. E que no final de semana os levava para o campo, para assistirem ou participarem de jogos de futebol...
Em quase todos os recantos havia um campo de futebol... os terrenos vazios faziam a vez de estádios e os jogadores podiam mostrar todo seu talento... inclusive para arrumar confusão...
Sim, foi uma época gostosa de se viver. Mas tudo muda, não é mesmo? Já quase não se vê florestas por onde passamos, os rios foram soterrados para que, em seu lugar, fossem levantados prédios que iriam melhorar a vida das pessoas....
Os pássaros não mais cantam por aqui, as flores foram aos poucos desaparecendo e, com elas, a fauna que enfeitava nossos dias... beija flores, abelhas, borboletas... aos poucos foram sumindo, pois íamos destruindo tudo à nossa frente em nome do progresso...
Até o cheiro da chuva se modificou com o tempo... antes, quando se anunciava uma tempestade, o cheiro de eucalipto emanava do ar, nos deixando leves e tranquilas... e a relva molhada... pequenas poças d'água se formavam pelo caminho, e a grama dentro dágua, como um lago em miniatura, nos fornecia um espetáculo simplesmente divino...
Hoje, o que nos resta? Apenas saudade de um tempo que não volta mais... e a responsabilidade de educar a nova geração, fazendo-a entender que destruir a natureza é destruir a nós mesmos... nós começamos a devastação. Tudo o que desejamos é que nossos descendentes consigam reverter tal situação...
Tania Miranda - Brasil - 13/03/2026
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