XENOFOBIA


XENOFOBIA

Não canso de dizer que sou sudestina, com muito orgulho. Nasci nos pés da Serra da Mantiqueira, no Vale do Paraíba, próxima das margens do Rio Paraíba do Sul. E fico chateada quando pessoas confundem o meu Vale com o Estado Nordestino que também tem a honra de se chamar Paraíba. E por que fico chateada? Bem, é um tanto complicado...

Estou chegando à casa de minha septuagésima primavera nesse plano. Ou seja, cresci quando a migração de nossos irmãos do nordeste foi mais intensa, quando de repente ser sudestina era ser estrangeira em sua própria terra...

Quando tinha quatorze anos e comecei a trabalhar, essa percepção de não pertencimento à minha terra tornou-se mais forte. Porque o sotaque predominante nos transportes coletivos era do nordeste. Nada contra, exceto pelo fato de que os comentários sobre nós, nativos da região, eram sempre depreciativos. E não podíamos fazer nenhum tipo de observação, nem mesmo nos defender, pois éramos vencidos por superioridade numérica...

Não bastasse esse tipo de atitude daqueles que, de certa forma, estavam invadindo nosso lar, aos poucos sua cultura foi suplantando a nossa. Devagar, dissimuladamente, as músicas, as danças... o folclore em geral, foi sendo substituído  pelas crenças e tradições de outras plagas...

Foi uma mudança normal, eu diria. Suplantados em número, logicamente que nossos hábitos iriam aos poucos se adequando à nova realidade. Não mais ouvíamos nossas histórias, não mais seguíamos nossas tradições... pois nosso rincão já não nos pertencia...

Lutar contra essa mudança não era possível, como até hoje não é. Pois ao defender seu torrão você logo recebe a pecha de "xenófoba". E o que é a xenofobia? Nada mais é que o medo, a aversão ou o preconceito contra pessoas de outras nacionalidades, culturas ou origens geográficas. Mas porque existe esse medo? Bem...

Em primeiro lugar, quando há uma "invasão" de um povo a uma nova região (nova para eles, não para os nativos da terra) é natural desejarem levar sua cultura para o lugar que elegeram como seu novo lar. Não levam em conta que esse povo já tem uma tradição arraigada, e que muitas vezes as novas diretrizes acabam se chocando com aquilo que já domina tal região há várias gerações...

Claro que os costumes dos novos integrantes daquela comunidade acabarão por suplantar as tradições originais daquele local. Pois o mundo é dinâmico, e as mudanças fazem parte da vida. Mas é o processo de mudança que se faz de forma traumática, onde o lado vencedor da querela em questão simplesmente obriga o povo dominado a aceitar as novas regras... e isso gera desconforto...

A dominação de uma região nem sempre se faz com armas, com contendas... muitas vezes basta determinado povo ir-se misturando aos nativos da região aos poucos... e quando se percebe, toda a formação simplesmente se modificou, sem nenhuma chance de reverter tal situação. E, quando os originais daquela região percebem, suas tradições simplesmente deixaram de existir...

Essa dinâmica existe desde o inicio da civilização. Não é certo nem errado. Como eu disse, faz parte da evolução social. E tentar lutar contra esta é inútil. Pois o tempo não nos permite reverter aquilo que tem que acontecer... afinal, não importa quais tradições nos formaram, somos todos irmãos e devemos seguir em frente, independente de nossas crenças pessoais. Lutar contra isso é lutar contra a própria vida em sociedade...

Tania Miranda -  16/05/2026    

===========================================================

XENOPHOBIA

I never tire of saying that I am from the Southeast region of Brazil, with great pride. I was born at the foot of the Serra da Mantiqueira mountain range, in the Paraíba Valley, near the banks of the Paraíba do Sul River. And I get upset when people confuse my Valley with the Northeastern state that also has the honor of being called Paraíba. And why do I get upset? Well, it's a bit complicated...

I'm approaching my seventieth spring on this plane. That is, I grew up when the migration of our brothers and sisters from the Northeast was most intense, when suddenly being from the Southeast meant being a foreigner in your own land...

When I was fourteen and started working, this perception of not belonging to my land became stronger. Because the predominant accent on public transport was from the Northeast. Nothing against it, except for the fact that the comments about us, natives of the region, were always derogatory. And we couldn't make any kind of observation, not even defend ourselves, because we were outnumbered...

As if this kind of attitude from those who, in a way, were invading our home wasn't enough, little by little their culture supplanted ours. Slowly, subtly, the music, the dances... the folklore in general, was being replaced by the beliefs and traditions of other lands...

It was a normal change, I would say. Outnumbered, logically our habits would gradually adapt to the new reality. We no longer heard our stories, we no longer followed our traditions... because our corner of the world no longer belonged to us...

Fighting against this change was not possible, as it still isn't today. Because when you defend your homeland you are immediately labeled "xenophobic." And what is xenophobia? It is nothing more than the fear, aversion, or prejudice against people of other nationalities, cultures, or geographical origins. But why does this fear exist? Well...

First of all, when a people "invades" a new region (new to them, not to the native inhabitants), it's natural for them to want to bring their culture to the place they've chosen as their new home. They don't take into account that these people already have a deeply rooted tradition, and that often the new guidelines end up clashing with what has dominated that region for generations...

Of course, the customs of the new members of that community will eventually supplant the original traditions of that place. Because the world is dynamic, and change is part of life. But it's the process of change that happens in a traumatic way, where the winning side of the dispute simply forces the dominated people to accept the new rules... and this generates discomfort...

The domination of a region isn't always done with weapons, with conflicts... often it's enough for a certain people to gradually mix with the native inhabitants of the region... and when you realize it, the entire formation has simply changed, without any chance of reversing the situation. And when the original inhabitants of that region realize it, their traditions simply cease to exist...

This dynamic has existed since the beginning of civilization. It's neither right nor wrong. As I said, it's part of social evolution. And trying to fight against it is useless. Because time doesn't allow us to reverse what has to happen... after all, no matter what traditions shaped us, we are all brothers and sisters and we must move forward, regardless of our personal beliefs. Fighting against this is fighting against life in society itself...

Tania Miranda - 05/16/2026

===========================================================

XENOFOBIA

Nunca me canso de decir, con gran orgullo, que soy del sureste de Brasil. Nací al pie de la sierra de Mantiqueira, en el valle del Paraíba, cerca de las orillas del río Paraíba do Sul. Y me molesta que confundan mi valle con el estado nororiental que también tiene el honor de llamarse Paraíba. ¿Y por qué me molesta? Bueno, es un poco complicado...

Estoy cerca de cumplir setenta años. Es decir, crecí cuando la migración de nuestros hermanos y hermanas del noreste era más intensa, cuando de repente ser del sureste significaba ser un extranjero en tu propia tierra...

Cuando tenía catorce años y empecé a trabajar, esta percepción de no pertenecer a mi tierra se acentuó. Porque el acento predominante en el transporte público era del noreste. No tengo nada en contra de ello, salvo que los comentarios sobre nosotros, los nativos de la región, siempre eran despectivos. Y no podíamos hacer ningún tipo de observación, ni siquiera defendernos, porque éramos superados en número...

Como si esta actitud de quienes, en cierto modo, invadían nuestra tierra no fuera suficiente, poco a poco su cultura suplantó la nuestra. Lentamente, sutilmente, la música, los bailes... el folclore en general, fue siendo reemplazado por las creencias y tradiciones de otras tierras...

Fue un cambio normal, diría yo. Superados en número, lógicamente nuestras costumbres se adaptarían gradualmente a la nueva realidad. Ya no escuchábamos nuestras historias, ya no seguíamos nuestras tradiciones... porque nuestro rincón del mundo ya no nos pertenecía...

Luchar contra este cambio era imposible, como sigue siéndolo hoy. Porque cuando defiendes tu patria, te tachan inmediatamente de "xenófobo". ¿Y qué es la xenofobia? No es más que el miedo, la aversión o el prejuicio contra personas de otras nacionalidades, culturas u orígenes geográficos. Pero, ¿por qué existe este miedo? Bueno...

En primer lugar, cuando un pueblo "invade" una nueva región (nueva para ellos, no para los habitantes nativos), es natural que quieran llevar su cultura al lugar que han elegido como su nuevo hogar. No tienen en cuenta que estos pueblos ya poseen una tradición profundamente arraigada y que, a menudo, las nuevas normas terminan chocando con lo que ha dominado esa región durante generaciones.

Por supuesto, las costumbres de los nuevos miembros de esa comunidad acabarán suplantando las tradiciones originales del lugar. Porque el mundo es dinámico y el cambio es parte de la vida. Pero es el proceso de cambio el que se produce de forma traumática, donde el bando vencedor en la disputa simplemente obliga al pueblo dominado a aceptar las nuevas reglas... y esto genera malestar.

La dominación de una región no siempre se realiza con armas ni con conflictos... a menudo basta con que un pueblo se mezcle gradualmente con los habitantes nativos de la región... y cuando uno se da cuenta, toda la estructura ha cambiado, sin posibilidad de revertir la situación. Y cuando los habitantes originarios de esa región se dan cuenta, sus tradiciones simplemente desaparecen...

Esta dinámica ha existido desde los albores de la civilización. No es ni buena ni mala. Como dije, es parte de la evolución social. Y luchar contra ella es inútil. Porque el tiempo no nos permite revertir lo que tiene que suceder... al fin y al cabo, independientemente de las tradiciones que nos hayan moldeado, todos somos hermanos y hermanas y debemos seguir adelante, sin importar nuestras creencias personales. Luchar contra esto es luchar contra la vida misma en sociedad...

Tania Miranda - 16/05/2026

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A MÚSICA É A LINGUAGEM DOS ANJOS

IDENTIDADE

THE CRYSTAL CUP - Chapter Six