A MENINA QUE EU NUNCA FUI...

A MENINA QUE EU NUNCA FUI...

É estranho pensar que nossa vida poderia ser diferente do que realmente é. Que poderíamos ser outra pessoa, viver uma realidade diferente. Principalmente quando nossa percepção do mundo não é condizente com a que as pessoas esperam de nós. Principalmente quando nos vemos diferentes daquilo que é esperado, tanto na forma de agir quanto em nosso mais íntimo... nossos pensamentos...

A nossa identidade é construída de tal forma que, por mais que tentemos, não há como mudar. Não importa o que digam, somos quem somos desde nossa concepção. O porque de sermos "assim ou assado" é uma incógnita. Depois de formada nossa psique, não há como modificá-la...

Podemos dizer que a programação de nosso ROM é imutável...  é gravado quando produzido e somente pode ser usado para leitura... fosse como o EPROM, até poderíamos apagar a programação original e inserir novos dados... não, pensando bem, não seria uma boa ideia...

Brincadeiras à parte, quando nascemos nossa personalidade já está definida. Se tivermos sorte de que esta coincida com o nosso sexo biológico, com certeza enfrentaremos problemas, mas conseguiremos navegar por essas águas sem maiores percalços. O problema é quando o reflexo do espelho não condiz com a imagem formada em nossa mente...

A população trans é, segundo estimativas de alguns grupos que mapeiam tais indivíduos, de aproximadamente 2% da população. Embora pareça um número pequeno, devemos considerar que a população mundial é de aproximadamente 8 bilhões de pessoas, o que representaria um total de 160 milhões de pessoas trans... em nosso país temos uma população de aproximadamente 214 milhões de almas...

Devemos nos lembrar que estou falando de uma fatia específica... os e as transgênero. Mas há outras divisões na sociedade. E logicamente esse número passa a ser maior...

Mas vamos nos ater à população trans. Especificamente às mulheres trans. Aliás, é a classe à qual pertenço...

Vivemos em uma Sociedade Hétero Normativa. E esse fato acaba por criar uma linha de conduta engessada de tal forma que tudo aquilo que fuja do estereótipo definido pela Sociedade causa estranheza. Não por outro motivo, acabamos por criar caixinhas onde armazenamos etiquetas para poder identificar as variações que não correspondem ao que é considerado aceitável pelo grupo...

Nossa primeira relação com as pessoas que se apresentam à nossa frente é marcada pela imagem que temos destas. Em nossa mente deduzimos como deve ser a vida das mesmas. E tais deduções são marcadas pelos nossos conceitos e preconceitos. Se vemos um homem trajado com indumentária feminina, logo associamos sua imagem ao homossexualismo. E isso quase sempre não corresponde à realidade da pessoa em questão...

 Uma pessoa trans, para assumir sua identidade de gênero, é obrigada a vencer diversas barreiras, sendo a mais difícil de todas o seu próprio julgamento. Sim, o juiz mais implacável que enfrentamos somos nós mesmas. Não é nada simples quebrar todos os estereótipos que ficaram gravados em nossa mente desde o inicio de nossa formação. Pois embora nossa consciência nos passe uma informação, o meio em que vivemos nos passa outra, diferente daquilo que seria nossa verdade. E por termos sido moldadas para seguir o que a Sociedade impõe, acabamos por viver uma vida que não condiz com nossa realidade. Pois essa não é, de forma alguma, a realidade do mundo que nos cerca...

Um fato que a maioria das pessoas... aquelas que não estão inseridas em nosso mundo cross/trans... não entendem é que ninguém se torna nada no decorrer da vida. Somos quem somos desde o primeiro vagido. Porém, devido a várias imposições sociais, temos que nos moldar àquilo que esperam de nós. Pois se tal não ocorrer, seremos penalizadas. Moralmente, financeiramente, afetivamente... 

A pressão para que correspondamos  ao papel a nós designado vem, primeiramente, de nossa família. Nossos pais, no afã de defender "nossa felicidade", acabam por não nos permitir sermos quem somos de fato. Afinal, os papeis sociais são bem definidos. Se você nasceu com o sexo masculino, tem que agir de certa forma... se feminino, de outra. E assim, vamos sendo segregadas ainda na primeira infância...

Quando, durante nosso desenvolvimento, nossos genitores percebem que estamos agindo de forma não condizente com nosso gênero, apressam-se a nos corrigir. Primeiramente com carinho, subindo para deboche até ameaças e, em um grau mais acima... somos simplesmente excluídas do círculo familiar. É como se morrêssemos em vida... afinal, nossa existência é apenas motivo de vergonha para o bom nome daqueles que nos trouxeram ao mundo... 

Claro que, muitas vezes, lançamos mão de recursos diversos para nos manter no seio familiar. O mais comum é mimetizar as ações esperadas pelo nosso núcleo. Nos anularmos para não sermos excluídas. E é quando muitas de nós acabam por se ver colhidas pela depressão e outros problemas, psicológicos e neurológicos... pois não nos sentimos realmente pertencentes ao nosso grupo familiar...

 

 




 

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