TRAUMAS E TRADIÇÃO

 



TRAUMAS E TRADIÇÃO

Há momentos que precisamos respirar. Colocar para fora nossas dúvidas, nossos anseios, nossas mágoas, nosso ressentimento. Precisamos, algumas vezes, nos abrir e falar francamente sobre aquilo que nos machucou no passado e que continua a nos ferir. Porque são conflitos não resolvidos. Porque são feridas que a muito foram abertas e não se curaram corretamente. Assim é a vida...

Conflitos existem e sempre existirão, não porque as pessoas assim o desejem. Simplesmente a visão de cada pessoa é única. E por esse motivo acaba por provocar atritos por mil motivos diferentes. Porque aquilo que eu vejo e entendo ao vivenciar determinada situação não é o mesmo que a pessoa ao meu lado consegue perceber. Meio confuso, não é mesmo? 

Nosso problema maior está enraizado na família. E família é a base da Sociedade. Na verdade, é o primeiro núcleo social do qual fazemos parte. É uma participação compulsória, visto que ninguém escolhe a família da qual fará parte. E toda a sua estrutura determinará o futuro de seus membros. E essa é a parte mais complicada, pois muito do que é replicado em um núcleo familiar vem de várias gerações. E, dependendo de como as tradições familiares são replicadas, os novos integrantes adquirirão complexos que carregarão por toda a sua vida. E não é tão fácil quebrar as correntes que nos aprisionam ao passado...

Nossa visão de como se forma uma família é... um homem e uma mulher se encontram, se apaixonam e ficam juntos, "por toda a eternidade". Depois de algum tempo, chegam os herdeiros. Herdeiros de quê? Boa pergunta. Normalmente, herdeiros das tradições que são passadas de geração a geração. Mas é justamente na chegada dos novos integrantes que tudo continua exatamente como antes. E por quê?

Bem, quando um casal se torna responsável pelo novo ser que chega e necessita de seus cuidados, fica perdido com sua nova obrigação. Porque, por mais que tenham planejado a vinda dessa criança, não fazem a menor ideia de como irão proceder em sua educação. Porque, infelizmente, filhos não vem com um manual de instrução...

Costumamos replicar com nossos filhos a forma que fomos criados. Mesmo que tenhamos reserva quanto à maneira que nossos pais agiram conosco, acabamos por agir de forma semelhante. Não porque assim desejamos. Na verdade, em nossa mente, estamos usando outro caminho na educação de nosso rebento. Mas na prática, "ainda somos os mesmos, e vivemos como nossos pais"...

A vida não facilita em nada para nós. Somos jogados na correnteza do tempo, e nossa luta é permanecermos na superfície para poder respirar. Muitas vezes quase nos afogamos, porque as ondas revoltosas acabam por nos cobrir por completo. 

Porque você acha que existe o famoso "choque de gerações"? Não é que haja discordância de ideias. Simplesmente a vítima da vez está sofrendo as consequências de uma "tradição" que nem mesmo quem a está aplicando compreende de fato. Porque a ideia primordial nunca foi passada realmente para as gerações futuras. Durante todo o tempo, os genitores criaram seus descendentes na base do erro e acerto. Mais erros que acertos, na realidade...

A experiência vem com a idade. Mas nesse ínterim o estrago já está feito. Geralmente o primeiro filho é o que mais sofre, pois é quando seus pais estão mais despreparados. Por outro lado, o caçula é o que menos irá sentir o drama da família, mas como o ambiente já está carregado com a animosidade latente, ele se tornará rebelde, acreditando não receber o mesmo prestígio que seu irmão mais velho...

E é essa distorção entre o que realmente ocorre e o que é percebido de fato que gera as consequências que todos os membros do grupo irão enfrentar em algum momento da caminhada. E cada um terá que arcar com o ônus daquilo que não escolheu, pois escolher viver determinada situação não é uma opção disponível. A pessoa simplesmente irá absorver o choque que vivenciou durante determinado tempo de sua jornada. E a partir de determinado momento, simplesmente decidirá qual caminho tomar. Mas, atenção... essa decisão não é algo consciente. É algo instintivo, que nem mesmo a pessoa tem noção de qual caminho tomar. Ou você acha que mudamos de opinião constantemente porquê?

Bem, quando a situação chega em um estado de ruptura, é hora de todos os envolvidos se reunirem e conversarem sobre aquilo que os aflige. E, juntos, tentarem encontrar uma solução. Não é algo simples nem fácil. Mas é a única oportunidade que tem para tentar romper os grilhões que tanto os machuca. Algumas vezes, é possível reverter os estragos causados pela famigerada "Tradição". Em outras, as pessoas simplesmente sobrevivem um dia após o outro, rezando para terem forças de conseguir alcançar um porto seguro...

Tania Miranda   -   Brasil   -   03/08/2026

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TRAUMA AND TRADITION

There are moments when we need to breathe. To let out our doubts, our anxieties, our hurts, and our resentments. Sometimes, we need to open up and speak frankly about what hurt us in the past—and what continues to wound us. Because these are unresolved conflicts; because they are wounds opened long ago that never healed properly. That is simply how life is...

Conflicts exist and always will—not because people desire them, but simply because every person’s perspective is unique. Consequently, friction arises for a myriad of reasons. What I see and understand when experiencing a certain situation is not the same as what the person beside me perceives. It’s a bit confusing, isn't it?

Our greatest problem is rooted in the family. And the family is the foundation of society. In fact, it is the first social unit we belong to. It is a mandatory affiliation, given that no one chooses the family they are born into. Its entire structure determines the future of its members. And this is the most complicated part, as much of what is replicated within a family unit stems from generations past. Depending on how family traditions are passed down, new members may acquire complexes they will carry for the rest of their lives. And breaking the chains that bind us to the past is no easy task...

Our vision of how a family is formed goes like this: a man and a woman meet, fall in love, and stay together "for all eternity." After a while, the heirs arrive. Heirs to what? That is a good question. Usually, heirs to the traditions passed down from generation to generation. Yet, it is precisely with the arrival of these new members that everything continues exactly as before. And why is that?

Well, when a couple becomes responsible for a new being that requires their care, they often feel lost regarding this new obligation. Because, no matter how much they planned for the child's arrival, they often have no idea how to go about raising them. Because, unfortunately, children don’t come with an instruction manual...

We tend to replicate the way we were raised when raising our own children. Even if we have reservations about how our parents treated us, we often end up acting in similar ways. Not because we want to; in fact, in our minds, we intend to take a different path in raising our offspring. Yet, in practice, "we remain the same, living just like our parents"...

Life cuts us no slack. We are cast into the current of time, struggling to stay afloat and catch our breath. We often come close to drowning as turbulent waves completely engulf us.

Why do you think the famous "generation gap" exists? It isn't merely a matter of disagreeing on ideas. Rather, the person currently in the hot seat suffers the consequences of a "tradition" that not even the person enforcing it truly understands. The core idea was never genuinely passed down to future generations. All along, parents have raised their children through trial and error—mostly error, in reality...

Experience comes with age, but by then, the damage is already done. Usually, the firstborn suffers the most, as that is when parents are least prepared. The youngest, on the other hand, feels the family drama the least; yet, because the atmosphere is already heavy with latent animosity, they may become rebellious, believing they do not receive the same regard as their older sibling...

It is this distortion between what actually happens and what is perceived that leads to the consequences every family member must eventually face. Each person must bear the burden of circumstances they did not choose, for choosing whether or not to live through a specific situation is not an option. One simply absorbs the impact of what was experienced during a certain phase of the journey. Eventually, a decision is made regarding which path to take. But take note: this decision is not a conscious one. It is something instinctive—something where the person themselves doesn't even realize which path to take. After all, why do you think we constantly change our minds?

Well, when a situation reaches a breaking point, it is time for everyone involved to come together and talk about what is troubling them—and, together, try to find a solution. It is neither simple nor easy. Yet, it is the only chance they have to try and break the shackles that cause them such pain. Sometimes, it is possible to undo the damage caused by that notorious "Tradition." At other times, people simply survive one day at a time, praying for the strength to reach a safe harbor...

Tania Miranda   -   Brazil   -   August 3, 2026

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TRAUMAS Y TRADICIÓN

Hay momentos en que necesitamos respirar. Para liberar nuestras dudas, nuestras ansiedades, nuestras tristezas, nuestro resentimiento. A veces necesitamos abrirnos y hablar con franqueza sobre lo que nos hirió en el pasado y lo que aún nos hiere. Porque son conflictos sin resolver. Porque son heridas que se abrieron hace mucho tiempo y no han cicatrizado del todo. Así es la vida...

Los conflictos existen y siempre existirán, no porque la gente lo desee. Simplemente porque la perspectiva de cada persona es única. Y por eso, terminan causando fricción por mil razones diferentes. Porque lo que yo veo y entiendo al vivir una situación no es lo mismo que lo que percibe la persona que está a mi lado. Un poco confuso, ¿verdad?

Nuestro mayor problema radica en la familia. Y la familia es el fundamento de la sociedad. De hecho, es el primer núcleo social al que pertenecemos. Es una participación obligatoria, ya que nadie elige la familia a la que pertenecerá. Y toda su estructura determinará el futuro de sus miembros. Y esa es la parte más complicada, porque gran parte de lo que se reproduce en una familia proviene de varias generaciones. Y, dependiendo de cómo se repitan las tradiciones familiares, los nuevos miembros adquirirán complejos que los acompañarán durante toda su vida. Y no es tan fácil romper las cadenas que nos atan al pasado...

Nuestra visión de cómo se forma una familia es... un hombre y una mujer se conocen, se enamoran y permanecen juntos, "para siempre". Después de un tiempo, llegan los herederos. ¿Herederos de qué? Buena pregunta. Generalmente, herederos de las tradiciones que se transmiten de generación en generación. Pero es precisamente con la llegada de los nuevos miembros que todo continúa exactamente igual que antes. ¿Y por qué?

Bueno, cuando una pareja se hace responsable del nuevo ser que llega y necesita su cuidado, se sienten perdidos ante su nueva obligación. Porque, por mucho que hayan planeado la llegada de este niño, no tienen ni idea de cómo procederán en su crianza. Porque, lamentablemente, los niños no vienen con un manual de instrucciones...

Tendemos a imitar con nuestros hijos la forma en que fuimos criados. Incluso si tenemos reservas sobre cómo nos trataron nuestros padres, terminamos actuando de manera similar. No porque queramos. De hecho, en nuestra mente, estamos usando un enfoque diferente para criar a nuestros hijos. Pero en la práctica, "seguimos siendo los mismos y vivimos como nuestros padres"...

La vida no nos lo pone fácil. Nos vemos arrastrados por la corriente del tiempo, y nuestra lucha es mantenernos a flote para poder respirar. Muchas veces casi nos ahogamos porque las olas turbulentas terminan cubriéndonos por completo.

¿Por qué crees que existe la famosa "brecha generacional"? No se trata de un desacuerdo de ideas. Simplemente, la víctima del momento sufre las consecuencias de una "tradición" que ni siquiera quienes la practican comprenden del todo. Porque la idea original nunca se transmitió realmente a las generaciones futuras. Durante todo este tiempo, los padres criaron a sus descendientes mediante el método de ensayo y error. En realidad, se cometen más errores que aciertos…

La experiencia llega con la edad. Pero mientras tanto, el daño ya está hecho. Generalmente, el primogénito es quien más sufre, ya que es cuando sus padres están menos preparados. Por otro lado, el hijo menor es quien menos se ve afectado por el drama familiar, pero como el ambiente ya está cargado de animosidad latente, se rebelará, creyendo que no recibe el mismo prestigio que su hermano mayor…

Y es esta distorsión entre lo que realmente sucede y lo que realmente se percibe lo que genera las consecuencias que todos los miembros del grupo enfrentarán en algún momento de su camino. Y cada uno tendrá que cargar con el peso de lo que no eligió, porque elegir vivir una situación determinada no es una opción. La persona simplemente absorberá el impacto que experimentó durante un período de su vida. Y a partir de cierto punto, simplemente decidirá qué camino tomar. Pero cuidado… esta decisión no es consciente. Es algo instintivo, e incluso la persona desconoce qué camino tomar. ¿O acaso crees que cambiamos de opinión constantemente sin motivo alguno?

Bueno, cuando la situación llega a un punto crítico, es momento de que todos los involucrados se reúnan y hablen sobre lo que les preocupa. Y, juntos, intenten encontrar una solución. No es sencillo ni fácil. Pero es la única oportunidad que tienen para intentar romper las cadenas que tanto les hacen daño. A veces, es posible revertir el daño causado por la infame "Tradición". Otras veces, la gente simplemente sobrevive día tras día, rezando para tener la fuerza de llegar a un puerto seguro...

Tania Miranda - Brasil - 03/08/2026


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