O CICLO DA VIDA


O CICLO DA VIDA 


A sensação de abandono que sentimos, quando nossos filhos finalmente partem rumo ao seu destino, é algo que vem devagar, tão silenciosamente, que quase não percebemos. Estamos tão acostumadas com a presença de nossos pimpolhos em nossa vida que, mesmo sabendo que um dias estes irão alçar voo, em busca de seu próprio futuro, não imaginamos nossa vida sem a presença destes...
Não é que eles vão nos abandonar. Simplesmente chega uma hora em que estes, como nós um dia, sentem a necessidade de explorar o mundo, em busca de um objetivo que a princípio nem mesmo eles entendem. Mas que sentem a necessidade de partir, conhecer novas plagas, explorar novos horizontes...
Há crianças que saem de sua vida abruptamente. Simplesmente um dia batem as asas e, quando você percebe, já construíram seu ninho em outra floresta, em uma árvore frondosa que, a princípio, lhes parece acolhedora, segura. Como se ainda estivesse sob nossas asas, mas desfrutando uma liberdade que jamais tiveram quando sob nossos cuidados...
Não que não os deixássemos à vontade. Nada disso. É que simplesmente se sentiam sob nossa vigilância constante, como se estivéssemos julgando suas ações a todo instante. Verdade seja dita, acabávamos por cometer esse pecado, realmente. Mas tudo isso devido ao medo que temos de que nossos bebês se macuquem durante sua caminhada. E por isso acabamos por, por excesso de zelo, deixar nosso maior tesouro sentir-se sufocado...
Nós também já passamos por esse processo. Houve um tempo que nós éramos os filhotes preparados para bater asas em busca de nosso próprio destino. Tudo o que víamos era o horizonte se descortinar à nossa frente. E nosso desejo maior era encontrar nossa cara metade e, junto a esta, construir o ninho que seria nosso castelo encantado, onde cuidaríamos de nossos infantes eternamente...
Em nossa imaginação seríamos os pais perfeitos, jamais machucaríamos nossos filhotes da maneira que nos sentíamos machucados por nossos genitores. Porque, durante nosso desenvolvimento, houve momentos em que simplesmente odiávamos a forma como nossos pais nos tratavam. Não entendíamos porque determinada situação era resolvida dessa e não daquela maneira. Até que chegou nossa vez de mediar uma situação semelhante...
Sim, o crescimento não é só rosas, também tem seus espinhos. Por mais que procuremos amenizar os percalços que nossos entes queridos irão enfrentar, muitas vezes somos nós as causadoras das feridas que estes carregarão por toda a sua vida. Assim como nós um dia também fomos machucadas. Não porque nossos pais assim o desejassem... mas a vida é muito mais do que aquilo que desejamos, e nem sempre conseguimos agir de acordo com o que realmente acreditamos ser o melhor...
Mas a partida não tem muito a ver com os traumas que ganhamos como herança. Pois embora guardemos mágoa de momentos passados, também há lembranças ternas e doces do convívio familiar. E essas lembranças, felizmente, embora não apaguem os momentos de tensão, servem para nos dar um alento pois de certa forma fomos felizes...
Como eu disse, não percebemos de imediato quando nossos pequenos estão se despedindo de nosso ninho. Não que eles não nos deem sinal de sua intenção, é que, simplesmente, nos recusamos a ver. E tentamos, de todas as maneiras, postergar essa possibilidade... perder nossos filhos de vista. Mas a decisão final cabe a eles, como um dia coube a nós. E, de repente, não temos mais aquele sorriso cativante todos os dias. A cama vazia, o armário... nos mostram que de um momento para o outro veremos nosso pequeno tesouro apenas esporadicamente. E, como nossos pais um dia, sentimos aquele vazio que nada consegue suprir. Não podemos demostrar aos nossos bebês o quanto sentiremos sua falta, pois sabíamos desde o princípio que este dia iria chegar. Mas saber não torna tal transição mais fácil...
E tudo o que nos resta é desejar que seu caminho seja leve, que não haja obstáculos que possam machucá-los. E sempre estaremos prontos para consolá-los, se precisarem de nosso apoio. Nossas asas estarão sempre abertas para acolher aqueles que foram e continuarão sendo a razão de nossa vida, não importa qual caminho o destino os faça trilhar. E cada vez que estes vem nos visitar aquela dor causada pelo abandono, que na verdade não foi um abandono, amaina um pouco... ao menos por alguns momentos nosso pequeno está ao nosso lado... e a saudade que sentimos é arrefecida, até que este alce voo novamente... mas assim é a vida. Foi assim que fizemos. E é assim que os filhos de nossos filhos também farão. Pois esse é o ciclo da vida...
Tania Miranda   -    Brasil   -   05/08/2026
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THE CYCLE OF LIFE

The sense of abandonment we feel when our children finally set off toward their destinies creeps in so slowly and quietly that we barely notice it. We are so accustomed to having our little ones in our lives that, even knowing they will one day take flight in search of their own futures, we cannot imagine life without them...
It is not that they are abandoning us. There simply comes a time when they—just as we once did—feel the need to explore the world, pursuing a goal they may not even fully understand at first. Yet, they feel compelled to leave, to discover new lands, and to explore new horizons...
Some children leave our lives abruptly. One day, they simply spread their wings, and before you know it, they have built a nest in another forest—in a lush tree that seems welcoming and safe to them. It feels as though they are still under our wings, yet they are enjoying a freedom they never knew while in our care...
It isn't that we didn't give them space; far from it. It is simply that they felt constantly under our watchful eye, as if we were judging their every move. Truth be told, we *were* guilty of that. But it all stemmed from the fear that our babies might get hurt along their journey. And so, out of overprotectiveness, we ended up making our greatest treasures feel stifled...
We, too, went through this process. There was a time when *we* were the fledglings ready to spread our wings and seek our own destinies. All we saw was the horizon unfolding before us. Our greatest desire was to find our soulmate and, together, build a nest—an enchanted castle—where we would care for our own children forever...
In our imaginations, we would be perfect parents; we would never hurt our children the way we felt hurt by our own parents. Because, during our own upbringing, there were times when we simply hated the way our parents treated us. We didn't understand why a certain situation was resolved one way rather than another. Until, that is, our turn came to handle a similar situation...
Yes, growing up isn't all roses; there are thorns, too. No matter how much we try to soften the hardships our loved ones will face, we are often the ones who inflict the wounds they will carry for a lifetime—just as we were once hurt ourselves. Not because our parents wished it so... but life is far more than what we desire, and we cannot always act in accordance with what we truly believe is best...
Yet, the moment of departure isn't defined solely by the traumas we inherited. For while we may harbor resentment over past moments, there are also tender, sweet memories of family life. And these memories—while they cannot erase the tense times—offer us solace, reminding us that, in a way, we were happy...
As I said, we don't immediately notice when our little ones are preparing to leave the nest. It’s not that they don’t signal their intentions; it’s simply that we refuse to see it. We try, in every way possible, to put off the possibility... of losing sight of our children. But the final decision is theirs, just as it was once ours. And suddenly, that captivating smile is no longer there every day. The empty bed and the closet remind us that, from one moment to the next, we will see our little treasure only sporadically. And, just like our parents before us, we feel a void that nothing can fill. We cannot show our babies how much we will miss them, for we knew from the start that this day would come. Yet, knowing it doesn't make the transition any easier...
And all that remains is to wish them a smooth path, free of obstacles that might cause them pain. And we will always be ready to comfort them, should they need our support. Our arms will always be open to welcome those who were—and will continue to be—the reason for our existence, no matter what path destiny leads them to follow. And each time they come to visit, that pain caused by abandonment—which wasn't truly abandonment—subsides a little... for a few moments, at least, our little one is by our side... and the longing we feel is soothed, until they take flight once more... but such is life. That is how we did it. And that is how our children's children will do it, too. For such is the cycle of life...

Tania Miranda   -    Brazil   -   August 5, 2026
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EL CICLO DE LA VIDA

La sensación de abandono que experimentamos cuando nuestros hijos finalmente se marchan hacia su destino es algo que llega lentamente, tan silenciosamente, que apenas la notamos. Estamos tan acostumbrados a la presencia de nuestros pequeños en nuestras vidas que, aun sabiendo que un día alzarán el vuelo en busca de su propio futuro, no podemos imaginar nuestras vidas sin ellos...
No es que nos vayan a abandonar. Simplemente llega un momento en que, como nosotros, sienten la necesidad de explorar el mundo, en busca de una meta que al principio ni siquiera comprenden. Pero sienten la necesidad de irse, de conocer nuevos lugares, de explorar nuevos horizontes...
Hay hijos que se van de tu vida abruptamente. Un día, simplemente extienden sus alas y, cuando te das cuenta, ya han construido su nido en otro bosque, en un árbol frondoso que, al principio, les parece acogedor y seguro. Como si aún estuvieran bajo nuestras alas, pero disfrutando de una libertad que nunca tuvieron cuando estaban a nuestro cuidado...
No es que no los hayamos dejado solos. En absoluto. Simplemente se sentían bajo nuestra constante vigilancia, como si juzgáramos sus acciones a cada instante. A decir verdad, terminamos cometiendo ese pecado. Pero todo esto por el miedo a que nuestros hijos sufran durante su crecimiento. Y así, por un celo excesivo, terminamos asfixiando a nuestro mayor tesoro…
Nosotros también hemos pasado por esto. Hubo un tiempo en que éramos hijos listos para desplegar nuestras alas en busca de nuestro propio destino. Solo veíamos el horizonte desplegarse ante nosotros. Y nuestro mayor deseo era encontrar a nuestra media naranja y, junto a ella, construir el nido que sería nuestro castillo encantado, donde cuidaríamos de nuestros hijos eternamente…
En nuestra imaginación, seríamos los padres perfectos, jamás lastimaríamos a nuestros hijos como nos lastimaron nuestros padres. Porque, durante nuestro desarrollo, hubo momentos en que simplemente odiábamos la forma en que nuestros padres nos trataban. No entendíamos por qué cierta situación se resolvía de una manera y no de otra. Hasta que nos tocó mediar en una situación similar...
Sí, crecer no es un camino de rosas; también tiene sus espinas. Por mucho que intentemos mitigar los contratiempos que nuestros seres queridos enfrentarán, muchas veces somos nosotros quienes causamos las heridas que llevarán consigo toda la vida. Así como nosotros también fuimos heridos alguna vez. No porque nuestros padres lo quisieran así... sino porque la vida es mucho más de lo que deseamos, y no siempre podemos actuar según lo que realmente creemos que es mejor...
Pero irse no tiene mucho que ver con los traumas que heredamos. Porque aunque guardamos rencor por momentos del pasado, también hay recuerdos tiernos y dulces de la vida familiar. Y estos recuerdos, afortunadamente, aunque no borran los momentos de tensión, nos reconfortan porque, en cierto modo, fuimos felices...
Como dije, no nos damos cuenta de inmediato cuando nuestros pequeños se despiden de nuestro nido. No es que no nos den señales de su intención, es solo que nos negamos a verlas. Intentamos, por todos los medios, posponer esa posibilidad... perder de vista a nuestros hijos. Pero la decisión final recae en ellos, como antes recaía en nosotros. Y de repente, ya no tenemos esa sonrisa cautivadora de cada día. La cama vacía, el armario... nos muestran que, de un momento a otro, solo veremos a nuestro pequeño tesoro esporádicamente. Y, como nuestros padres, sentimos ese vacío que nada puede llenar. No podemos mostrarles a nuestros bebés cuánto los vamos a extrañar, porque sabíamos desde el principio que este día llegaría. Pero saberlo no facilita esta transición... Y lo único que nos queda es desearles un camino luminoso, que no haya obstáculos que puedan lastimarlos. Y siempre estaremos dispuestos a consolarlos si necesitan nuestro apoyo. Nuestras alas siempre estarán abiertas para recibir a quienes fueron y seguirán siendo la razón de nuestras vidas, sin importar el camino que el destino les depare. Y cada vez que vienen a visitarnos, ese dolor causado por el abandono, que en realidad no fue abandono, se alivia un poco... al menos por unos instantes nuestro pequeño está a nuestro lado... y la añoranza que sentimos disminuye, hasta que vuelven a alzar el vuelo... pero así es la vida. Así lo hicimos. Y así lo harán también los hijos de nuestros hijos. Porque ese es el ciclo de la vida...
Tania Miranda - Brasil - 05/08/2026

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