COTIDIANO...
COTIDIANO...
Hoje acordei mais tarde que o meu costume. Eram quase sete horas da manhã. Acordei com gente chamando no portão. Era meu irmão, que veio buscar nossa mãe para uma visita a parentes no interior. Normal. Abri o portão, ele olhou para mim e falou "nossa, como você está feia"... respondi que havia acabado de acordar, ele complementou, "você acorda feia prá caramba"... ia fazer uma piadinha, mas o alertei que se prosseguisse, com certeza iríamos brigar. Ainda insistiu, mas ao ver que eu falava sério, resolveu deixar prá lá...
Enquanto caminhávamos em direção da casa de minha mãe, conversamos amenidades. Deixei-o na porta de minha mãe e fui cuidar de meus afazeres... ferver água para o café, recolher o lixo, dar comida para a gatinha...
Passados alguns minutos, ele veio à minha porta. Mandei-o entrar e começamos a conversar. Começou a falar baixo, para não acordar meus outros familiares. Então expliquei-lhe que eu estava sozinha, pois minha cara metade e minha netinha tinham saído no dia anterior com meu filho mais velho para Águas de Lindóia. Ao saber, convidou-me para ir com eles para a casa dos parentes...
Bem, está aí uma coisa que realmente não me atrai... porque gosto de meu cantinho. Mas, além disso, um desses parentes arrumou-me uma cama de gato a alguns anos atrás. Então, por motivos óbvios, não faço questão de visitá-lo. Se bem que, em realidade, não tenho muito contato com quase nenhum parente. Preservação, eu acho...
Aproveitando que remoemos o passado, falei ao meu irmão que ele até poderia não se lembrar, mas me fez passar uma saia justa na mesma época que esse meu tio. E não foi nada fácil contornar a situação, que era delicada. Claro, ele não se lembrou, o que era esperado. Mas não aceitei que negasse o ocorrido, e no final ficou o dito por não dito... e tudo bem...
Engraçado como às vezes coisas que ocorreram a vinte, trinta anos atrás voltam para te machucar. Você até tenta esquecer, mas certas lembranças teimam em retornar à sua vida. E por mais que você tente, não consegue esquecer...
Sou o tipo da pessoa que se esquece facilmente da maioria das coisas que ocorrem à minha volta. Não gravo acontecimentos, rostos e nomes. Seja algo bom ou ruim, em uma duas horas, já sumiu nas brumas do tempo... do meu tempo... porém, alguns fatos acabam por ficar tão marcados em minha memória que, por mais que deseje, não consigo apagá-las como gostaria...
Quem me conhece sabe que detesto situações constrangedoras. Prefiro viver em paz. Não costumo me envolver em nada que possa iniciar uma querela. Mesmo no seio do lar, muitas vezes engulo insultos como se nada significassem para não romper a paz em meu recanto paradisíaco...
No trabalho procuro ser o mais discreta possível. Dou o meu melhor, mas evito confrontos. Claro que nem sempre isso é possível, mas o mundo é assim, a vida tem seus altos e baixos. Aprendi cedo a administrar minha paciência. Mas tudo tem um limite, e quando estouro, estouro de verdade...
Claro, já tive desavenças no seio familiar. Em todas as esferas. Mas chegou um momento em que percebi que isso não me trazia nada de produtivo. Então passei relevar a maioria dos acontecimentos à minha volta. O que, de certa forma não é nenhum sacrifício maior, já que sempre fui uma pessoa solitária...
Tenho poucos amigos. Dá para contar nos dedos de uma mão. A maioria das pessoas que gravitam à minha volta são colegas ou conhecidas. Porque tenho o hábito de afastar-me dos indivíduos sempre que sinto que os estou importunando. Se percebo que determinada pessoa não está à vontade quando tento conversar com esta, me afasto. Afinal, não há nada pior que alguém que insiste em ficar em um lugar ao qual não pertence...
Isso significa, no final das contas, que permaneço a maior parte do tempo sozinha. Não por opção, mas é o que acaba me sobrando. Lógico, ninguém tem culpa dessa minha posição. Não é imposta por ninguém, simplesmente acontece. E é algo tão natural em minha vida, que se for olhar meu passado, descubro que vivi a maior parte do tempo sozinha. Mesmo quando cercada de pessoas ao meu redor. Bem, faz parte da vida...
Não estou me queixando da vida que levo. Cada um tem seu destino. Esse é o meu. E, por incrível que pareça, sou feliz. Porque não espero nada, aquilo que chega para mim é motivo de alegria. Claro, enfrento dificuldades, como todo mundo. Só não deixo que esses percalços se transforme em frustração. Afinal, amo viver. E não tenho pressa alguma de partir desse plano. Além disso, existe um ditado que diz "Antes só do que mal acompanhado"...
Tania Miranda - Brasil - 19/07/2026
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EVERYDAY LIFE...
I woke up later than usual today—it was almost seven in the morning. I was roused by someone calling out at the gate. It was my brother, there to pick up our mom for a visit to relatives in the countryside. Nothing out of the ordinary. I opened the gate, and he looked at me and said, "Wow, you look awful." I replied that I’d just woken up, and he added, "You wake up looking like hell." I was about to make a joke, but I warned him that if he kept it up, we’d definitely end up fighting. He persisted for a moment, but seeing I was serious, he decided to drop it...
As we walked toward my mom's house, we made small talk. I left him at her doorstep and went to attend to my chores—boiling water for coffee, taking out the trash, feeding the cat...
A few minutes later, he came to my door. I invited him in, and we started talking. He kept his voice low so as not to wake the rest of the family. I explained that I was alone, since my better half and my granddaughter had left the day before with my eldest son for a trip to Águas de Lindóia. Upon hearing this, he invited me to join them at the relatives' house...
Well, that’s something that really doesn't appeal to me... because I love my own little sanctuary. But beyond that, one of those relatives tried to make a move on me a few years back. So, for obvious reasons, I have no desire to visit him. Though, in reality, I don't have much contact with hardly any of my relatives. Self-preservation, I suppose...
Since we were already dredging up the past, I told my brother that he might not remember, but he had put me in a really awkward spot around the same time that uncle of mine did. And it hadn't been easy to handle the situation, which was delicate. Of course, he didn't remember—which was to be expected. But I wouldn't accept their denial of what happened, and in the end, the matter was dropped... and that was fine...
It’s funny how things that happened twenty or thirty years ago can come back to hurt you. You try to forget, but certain memories insist on returning to your life. And no matter how hard you try, you just can't forget...
I’m the sort of person who easily forgets most things happening around me. I don’t hold onto events, faces, or names. Whether good or bad, within an hour or two, they’ve vanished into the mists of time—*my* time. Yet, some facts become so deeply etched in my memory that, much as I might wish to, I cannot erase them the way I’d like...
Anyone who knows me knows I detest awkward situations. I prefer to live in peace. I don’t usually get involved in anything that might spark a conflict. Even at home, I often swallow insults as if they meant nothing, just to avoid disturbing the peace of my little paradise...
At work, I try to be as discreet as possible. I do my best, but I avoid confrontations. Of course, that isn't always possible—but that’s the world; life has its ups and downs. I learned early on how to manage my patience. But everything has a limit, and when I finally snap, I snap for real...
Sure, I’ve had disagreements within my family—in every sphere, really. But there came a moment when I realized none of that was productive. So, I started letting most things around me slide. Which, in a way, isn't much of a sacrifice, since I’ve always been a solitary person...
I have few friends—you could count them on the fingers of one hand. Most people in my orbit are just colleagues or acquaintances. That’s because I have a habit of pulling away whenever I feel like I might be bothering someone. If I sense that a person isn't comfortable when I try to talk to them, I step back. After all, there is nothing worse than someone who insists on staying in a place where they don't belong...
Ultimately, this means I spend most of my time alone. Not by choice, but it is simply how things turn out for me. Of course, no one is to blame for this situation. It isn't imposed by anyone; it just happens. And it is such a natural part of my life that, if I look back at my past, I realize I have spent the majority of my time alone—even when surrounded by people. Well, that’s just life...
I am not complaining about the life I lead. Everyone has their own destiny. This is mine. And, surprisingly enough, I am happy. Because I expect nothing, whatever comes my way is a source of joy. Of course, I face difficulties, just like everyone else. I simply don't let those setbacks turn into frustration. After all, I love living. And I am in no rush to leave this plane of existence. Besides, there is a saying: "Better to be alone than in bad company"...
Tania Miranda - Brazil - July 19, 2026
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VIDA COTIDIANA...
Hoy me desperté más tarde de lo habitual. Eran casi las siete de la mañana. Me despertó alguien que llamaba a la puerta. Era mi hermano, que venía a recoger a mi madre para que visitara a unos parientes en el campo. Lo normal. Abrí la puerta, me miró y dijo: «¡Vaya, qué mala pinta tienes!». Le respondí que acababa de despertarme, y añadió: «Te levantas con un aspecto terrible». Iba a bromear, pero le advertí que si seguía, seguro que nos pelearíamos. Insistió, pero al ver que hablaba en serio, decidió dejarlo pasar.
Mientras caminábamos hacia la casa de mi madre, charlamos de cosas sin importancia. Lo dejé en la puerta de mi madre y fui a hacer mis tareas: hervir agua para el café, sacar la basura, dar de comer al gato...
Unos minutos después, volvió a mi puerta. Le dije que pasara y empezamos a hablar. Empezó a hablar en voz baja para no despertar al resto de la familia. Le expliqué que estaba sola, ya que mi pareja y mi nieta se habían ido el día anterior con mi hijo mayor a Águas de Lindóia. Al oír esto, me invitó a ir con ellos a casa de sus parientes...
Bueno, eso no me atrae en absoluto... porque me gusta tener mi espacio. Pero, además, uno de esos parientes me regaló una cama para gatos hace unos años. Así que, por razones obvias, no siento la necesidad de visitarlo. Aunque, en realidad, casi no tengo contacto con ninguno de mis parientes. Supongo que es por precaución...
Aprovechando que estábamos recordando el pasado, le dije a mi hermano que quizás no se acordara, pero que me había metido en una situación incómoda por esas mismas fechas que mi tío. Y no fue fácil salir del paso, ya que la situación era delicada. Por supuesto, no se acordaba, como era de esperar. Pero no acepté su negación de lo sucedido, y al final, todo fue en vano... y está bien...
Es curioso cómo a veces cosas que pasaron hace veinte o treinta años vuelven para hacerte daño. Incluso intentas olvidar, pero ciertos recuerdos insisten en regresar a tu vida. Y por mucho que lo intentes, no puedes olvidar...
Soy de esas personas que olvidan fácilmente casi todo lo que sucede a mi alrededor. No recuerdo eventos, caras ni nombres. Sea algo bueno o malo, en una o dos horas ya se ha desvanecido en la bruma del tiempo... de mi tiempo... Sin embargo, algunos eventos terminan tan arraigados en mi memoria que, por mucho que lo desee, no puedo borrarlos como quisiera...
Quienes me conocen saben que odio las situaciones embarazosas. Prefiero vivir en paz. No suelo meterme en nada que pueda provocar una pelea. Incluso en mi propia casa, suelo tragarme los insultos como si no significaran nada, para no perturbar la paz de mi idílico hogar...
En el trabajo, intento ser lo más discreto posible. Doy lo mejor de mí, pero evito las confrontaciones. Claro que no siempre es posible, pero así es la vida; tiene sus altibajos. Aprendí desde joven a controlar mi paciencia. Pero todo tiene un límite, y cuando exploto, exploto de verdad...
Por supuesto, he tenido desacuerdos en mi familia. En todos los ámbitos. Pero llegó un punto en que me di cuenta de que eso no me aportaba nada productivo. Así que empecé a ignorar la mayoría de los acontecimientos a mi alrededor. Lo cual, en cierto modo, no es un gran sacrificio, ya que siempre he sido una persona solitaria...
Tengo pocos amigos. Los puedo contar con los dedos de una mano. La mayoría de las personas que me rodean son compañeros de trabajo o conocidos. Porque tengo la costumbre de alejarme de la gente cuando siento que les molesto. Si percibo que alguien se siente incómodo cuando intento hablarle, me alejo. Al fin y al cabo, no hay nada peor que alguien que insiste en quedarse donde no le corresponde...
Esto significa, en definitiva, que paso la mayor parte del tiempo solo. No es por elección, sino porque es lo que me toca. Claro que nadie tiene la culpa. Nadie me lo impone, simplemente sucede. Y es tan natural en mi vida que, si miro hacia atrás, descubro que viví la mayor parte del tiempo solo. Incluso rodeado de gente. Bueno, es parte de la vida...
No me quejo de la vida que llevo. Cada uno tiene su destino. Este es el mío. Y, sorprendentemente, soy feliz. Porque no espero nada; todo lo que me llega es motivo de alegría. Claro que me enfrento a dificultades, como todo el mundo. Simplemente no dejo que estos contratiempos se conviertan en frustración. Al fin y al cabo, amo la vida. Y no tengo prisa por dejar este mundo. Además, hay un dicho que reza: «Más vale solo que mal acompañado»...
Tania Miranda - Brasil - 19 de julio de 2026

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